segunda-feira, outubro 22, 2012

triste é não ver futuro

Outubro. Campos gerais. Chapadões. Frio seco. Rio fresco. Arraias negras com pintas brancas giram como discos. Estio. Ar transparente, céu azul. É primavera e pássaros namoram. Campos gerais. Estirões de mata à beira rios. Horizonte. Mata alta por onde passa um córrego de água boa e fria. Os pássaros gritam. Silêncio na planície verde clara. Ternura. De repente, o Uirapuru aparece, um grito, vem o chamando para a fêmea. Silêncio. E calmamente, a fêmea se aproxima. É a resposta. Eles conversam na sombra das árvores. O olhar parece vir do fundo de outros tempos. Reconhecem. Aproximam-se. Aqueles dois pontos de som se abraçam. O movimento das nuvens desconstrói a sombra comprometida. O vento faz ondas como penteado nas folhas verdes douradas pelo sol. A disponibilidade harmônica dos espaços azuis agora é enorme. Lá vai um pássaro Príncipe, e pousa no galho. De ventre cor de sangue ele enche de piados o ambiente. O Uirapuru, apesar do canto que domina toda a floresta, não tem a força de Príncipe. Tangará, segundo nome de Uirapuru, tem bico forte, pés exageradamente grandes e, às vezes, nos lados da cabeça, um desenho branco. É forte, mas parece opaco perto da beleza de Príncipe. Mas, debaixo das asas, ele leva uma caixa. Dentro da caixa, uma flauta. Dentro da flauta mora o prazer. Um dia voltará ao criador para devolver seu dom.   Esquecido entre o chão forrado de folhas, ele se esquiva do poder da realeza, e decola junto com sua fêmea em uníssono canto. As asas atropelam o ar, cortam o vento e os dois saboreiam a exuberância de serem os verdadeiros donos da floresta.

2 comentários:

Iris de Oliveira disse...

vou casar com esse texto

Maria disse...

Que lindo!