terça-feira, novembro 08, 2016

O corpo

Caminhei de maneira preguiçosa até a longínqua privada no banheiro do quarto de hóspedes. No lugar do alívio, a dor. Como é impensável fazer muitos anos. O xixi desce quente, chega a esquentar o corpo todo e, no final, parece cortar feito um anzol enferrujado. É engraçado, pois essa dor me fez lembrar de uma história.

Dias desses, na menisquência da vida, estava passeando pelo facebook e encontrei o perfil de Marietta. Deus, pai. Como um empurrão dado pelo choque que levo enquanto urino, acabei adicionando sem querer o meu maior romance. O que pensará Marietta? Onde estará Marietta? Logo, imaginei, de duas, uma – ou eu apago esse trem ou não sei. Fiquei com o não sei. Descobri que Marietta havia casado com um colega norte-americano. O mister, inclusive, apoiava de forma clara a candidatura de Donald Trump. Bingo! Ela que sempre havia me chamado de extremista, por nunca mudar meu apreço pelos republicanos, estava com um apoiador de Trump. É hilariante, mas também interessante. O seu centro, pois bem, o que você acredita ser o meio, vai de acordo onde fica seu extremo. Só o seu extremo pode medir o meio alheio. Essa é uma linha exata e particular. Agora, ela entendia tudo que eu falava sobre o poder radical dos Democratas, principalmente após a falsa queda do comunismo no final do século XX. Nesse momento, estávamos juntos no nosso meio. O único possível, cara pálida.

Toda essa conversa está me dando fome, entretanto isso também me faz lembrar das minhas "colegas" hemorróidas. Deu-me vontade também de dançar. Lembrei de Marietta, dos bailes de foxtrotes, muito antes de me casar com Inês. Recordei as sardinhas de suas costas, da pele macia e rubra. Que imagem mais pueril o velhote está tendo aqui nesse momento. Hahahaha. Olha, você deve estar me julgando, mas não minto.

Caracoles! Dias desses fui até o Jockey e senti outra sensação de perda. Vocês têm a ideia do desinteresse dessa nova geração com o melhor dos jogos e lazeres? Meu sobrinho fala que é um tal de Poker Online a bola da vez. Meu vizinho disse também que agora existem sites com vários números no nome que são a coqueluche das apostas. Apostar de casa? Sem parar? Pra quê? Um colega de café disse que agora o dinheiro deve ser aplicado em fundos que servem como "aceleradoras" de startups. Bullshit. Velocidade para mim é o meu cavalo Burke, em homenagem ao excelentíssimo Edmundo Burke, rasgando aquele chão que é minha própria memória. Como dizia o filósofo Nenem Prancha: "Quem corre é a bola, não o jogador". Sai pra lá aceleradoras, apostas online e qualquer forma de me distanciarem do meu romance.

Veja bem, o mundo mudou, não sabem nem mais o quê é trote, imagina foxtrote. Ninguém deve perder tempo ligando para os Bombeiros? Estou distante ou caduco? Aliás, Marietta deve estar achando tudo isso um trote. Estou há 40 anos desaparecido e casado com uma pessoa que não conheço. A última vez que toquei em Inês foi em nossa lua de mel. Tive meus romances extracurriculares, né, camarada. Bebi bastante em alguns momentos. Não que eu ficasse naquela coisa de orgia que sambista velho sempre canta, mas eu cheguei a experimentar objetos a mais numa relação. Compreende? Estou aqui sendo franco, já mijo sem querer mesmo nas calças. Dias desses, assustei-me com um rojão e foi aquele aguaceiro danado. Isso é experiência, meu caro. O que será que Marietta acharia disso? Como posso me desculpar? Digo a ela qualquer coisa? Talvez, olhando esse velho, ela não dará uma cusparada, como da última vez. Talvez, talvez. Nada mais certo do que a dó. Venha cá. Você sabe o que vai ter dó, né? Seu cérebro já percebe antes de ver a imagem. Criança remelenta, pé descalço, na África? Dó. Velho, hemorroida, sem as cordas vocais, xixizento, meio curvo? Dó! Tomara. Taí, a equação. Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim, Marietta.

Nesse tempo todo, o meu pênis voltou a queimar. É mais um jato daquele líquido amarelo efervescente tomando conta do meu corpo e me mandando para aquele retângulo com azulejos coloniais. O que pensarei no próximo xixi? O que rememorarei na evacuação seguinte? O problema não é a dor, mas o que ela é sempre carregará. Boa noite.

quinta-feira, outubro 01, 2015

boleros

Abriu os olhos regurgitando os excessos do dia anterior, em um cansaço cheio de emoções e urgências. Sentiu-se como um saco de batatas, pesado e esparramado por uma cama úmida de suor. Armado com o resto de café do dia anterior, o homem reconheceu o calor dos pelos de Lixo, seu cachorro nada de estimação que recebeu este nome por suas atividades noturnas ilícitas pelas ruas do bairro. Acariciou as pelancas gordas do animal causando enorme satisfação. Dali tudo não parecia tão ruim. O teto girava em espiral como uma canção tribal. Tinha cores, tambores, gritos, tiros de Bacamartes. O homem se sentia silencioso como se fosse um náufrago de uma vida que se esgotava sem que aparecesse uma ilha salvadora no horizonte. Aquele começo de tarde parecia ter 7 mil anos. Olhava pela janela a movimentação da cidade e seus telhados portugueses.  Percebia uma obra maciça ao lado para a construção de mais um novo empreendimento para "salvar" a honra do centro local. O projeto significava tirar seus moradores centenários para repor com bancos, prédios espelhados, menos vida, menos cheiro, mais dinheiro. O resumo do fim do mundo é muito longo para apenas uma encarnação. Saber que os prédios antigos continuavam ali, envelhecidos e sujos, era sempre um alívio, pois o fazia pensar que restavam coisas imutáveis no mundo, capazes de navegar incólumes entre as turbulências do tempo e da história. A cada explosão, o homem fechava os olhos. Desejava não ser mais um fio de desesperança. Para fugir do colapso, ele deixou a mente vagar, e ela encalhou na imagem fantasmagórica de Dalva de Oliveira cantando: "Meu viver é tão triste/ É um vale de dor/ O que minha alma assiste/ É ausência de amor", trechos de um bolero perdido da não menos perdida dupla Hilton Simões e Luis Lemos, presos em formato de 78 rotações que não os deixou escapar para o universo dos 33, muito menos CDs e spotifys. Com seu habitual apreço pelas suposições, negava-se admitir que aquela lembrança era um chamado do passado. A mente se negava envelhecer, caso isso ocorresse, um salto pela ventana era a solução rápida para qualquer infortúnio. Mas seria maravilhoso demais morrer com um bolero tocando em seu mundo. Rejeitou a proposta e se levantou. Nada poderia ser pior do que ser perfeito.

segunda-feira, março 02, 2015

terra

Um cheiro amargo de café passeia por esse quartinho escuro. No canto esquerdo deste inóspito lugar, um armário, presente dos meus vizinhos do andar de baixo, continua repleto de poeira, exausto e mal usado. Um espelho daqueles de comprar em loja de R$ 1,99 continua ali todo torto, mas agora todo enferrujado pelo tempo. O corpo corrói. Quando eu cheguei por aqui tinha uma bolsa enorme de desejos. Listei cada um deles como faço para as compras na feira de produtos ao fundo de casa. Conheci muitas pessoas, locais e espaços que eu não sei agora descrever o que eram. Acho que às vezes visitei o inesperado, o vácuo, o buraco. Um eco constante me remete a um motor industrial sempre afinado na mesma nota. Não existe razão para um lugar como este. As paredes são frias, o ar é meloso e exausto. A cama persiste em pender para o lado esquerdo. Tudo por causa do estrado que perdeu um de seus dentes. A janela continua sendo um espaço para fuga, mas o recente prédio de 38 andares, que destruiu a casa dos meus 20 vizinhos, não me deixa ver nada. Apenas sinto a umidade, a sensação ruim de ficar encaixotado por uma cidade que não respeita. Fiquei sabendo que tem um abaixo-assinado para cortar todas as árvores da rua. Também pudera, elas foram eleitas as maiores inimigas deste verão. Já pensei em organizar uma passeata para descolar algum trocado com fanáticos por lugares repugnantes. De cima pra baixo todo mundo é ninguém. Vou nessa marcha de soldado, neste cúmulo de azar, neste embaraçoso desprazer. Piso sem ver no que me sustenta.

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

trapiche

São horas da noite.
Na cama deserta
A mão tateia
Seios fartos
derramados pelo corpo
Rapé manchado no lençol
Espaço preto

Sotaque francês
Com gosto de abará
Pimenta da Costa
Eleva a sabedoria
Dos seus olhos miúdos.
Grão do paraíso
Perdido em Mato Dentro.

Algo me diz
Que amanhã lá fora 
A coisa irá mudar
Outro lugar estarei
Onde uma estrela caiu
E eu não tive que acordar
No trapiche, ao quebra-mar

O céu está cheio de estrelas,
A lua hoje não veio,
Para esta noite tão clara.
Ao fundo,
Penso na forma da cor
Aqui perto do mar, no botequim
ou apertando o lençol.

Vem o vento
Que levanta areia.
Fico curvado no tempo
Vendo as velas derrubarem barcos.
Tempestade.
Os olhos ardem,
E os músculos retesam. 

Meu abraço trovoa
Penso em esperanças para teus olhos vermelhos
Guias, contas, quintas, quarta-feira.
Não só,
Mas só e reverencio,
Se for possível nesta retina,
Nessa manhã coberta de cinzas.

Que bom que você existe,
África blue.
O temporal está no fim
Chegou ao cais
E a paz a imitou,
Fruta, temporã, 
Cor de sangue.

Vou sossegado 
Para o lado do rio
E é porque eu não confio em teu carinho
Mesmo que venha até a Lapa
No aço do metrô.
Não me enlace 
E acabe.

Convicção mais ou menos
Explosão de uma pressão
Pare um instante único
Que coisa mais sem lógica
Os braços se socam
A friagem da cerro corá separa
Pressão na boca não cabe.

Formosa,
Feita em base de fórmica.
Ajoelho e trovo sua imagem,
Sádica 
E esporádica.
Deito a cabeça no trapiche 
E espero o nada.

Estimo sua falta de pudor
Deixo a vida e morte pra depois
Corpo a prumo, sigo o rumo
Do nunca, do quase, do nunca mais
O impossível é algo sólido,
saturado de beleza, 
E terra do porvindouro, por favor. 

quinta-feira, setembro 04, 2014

linhaça, mamão e sem açúcar

2014. Um homem caminha distraidamente pela rua que parecia inútil a sua memória. Seu olhar, agora, esfumaçado pelo tempo, fita sem perceber a entrada de um casebre já em estado de deterioração. O calor sufocante ajuda a trazer aquela lembrança. O senhor não fica indiferente, não se apressa, paralisa em frente a residência. Fica literalmente estupefato. Está no encontro da rua Duque de Caxias com Sete de Setembro, próximo a um córrego, hoje em dia, vazio de peixes.
A visão entre as grades carcomidas pela ferrugem, transferem o homem para o seu passado, causando rápido nervosismo. Suas mãos ficam geladas, a boca pronuncia palavras inaudíveis, o ritmo do coração vagaroso se torna subitamente acelerado e avassalador.
As pessoas observam aquele estranho personagem que cruza o passeio de um lado para o outro, balbuciando coisas e vasculhando com os olhos aquela casa que aparentemente esqueceu.
Mas o homem ignora tudo e todos. Está viciado somente naquele alpendre, que contém um daqueles altares sem a santa que um dia lá viveu. O espaço lembra tempos de amores, fúria, brigas, beijos e sexo. O piso ainda parece vivo, com ladrilho de cores que passeiam entre o marrom, vermelho e amarelo claro. Redemoinhos de recordações desencontradas dissolve sua visão da realidade, e ele viaja, sem aborto. É o passado que agora revive. “Adeus, Amor” na voz de Carlos Galhardo, “Quando eu me Chamar Saudade” com Nora Ney e Jorge Goulart entoam em seu cérebro. Lembranças de uma existência inteira dedicada a um amor. Lá ele experimentou o maior dos calores, suou e festejou uma vida repleta de liberdades sexuais: ativa, vermelha, com gosto de sumo. A parede de tijolinho à vista contém a forma dos corpos que ali se entrelaçaram tantas vezes, gasto, mas apaixonado. A mureta, próxima da janela do quarto lateral, parecia ser o local onde almoçava todos dias quando fugia do trabalho na sapataria. Naquela época, fez o básico de uma vida urbana pacata. Viver na cidade nem sempre foi estar no desatino.
Mas o tempo da memória parece acabar como o final das páginas de um livro, e a realidade volta a assombrar. O homem enxerga entre aquele portão como está atualmente; vazio, cheio de sombras e escassez de cor.
Regressa a surdez gradual. O silêncio. As alucinações e pesadelos presentes. Incrédulo por defrontar-se com o maior dos seus dias, o homem volta a visão para o céu. Sente o incômodo que é se defrontar com o sol, apesar dos olhos arderem muito menos do que antes. A ausência de sentidos dilacera aquele corpo já cansado pelo tempo. Afinal, até sentir muita dor faz falta. É hora de voltar as vistas para do outro lado da rua e continuar o caminho até o mercado central. Vitamina com linhaça, mamão e sem açúcar o espera.

sexta-feira, junho 20, 2014

mangue

A vida vai muito além das possibilidades da canção.
O som, o som.
Ele não terá fim.
Os ciclos não prevêem a oportunidade,
pois se ocupam das coisas que são.
Ao escurecer, a terra toma forma de cor,
O gosto é de mangue.
A vaidade faz questão de aparecer.
Resiste a tudo que é feio, problemático.
O orgulho é o que persiste e dá o tom da solidão.
Abandono é mato em terras de lamaçal.
O desprezo pela fúria é consenso,
Mas, nessa imensidão, não há dor maior do que existir.
O ser, uma vertigem de tempo, vai à procura de sua ancestralidade.
A vida, banhada de sangue e barro, é a busca eterna pelos portais: reencarne e desencarne.
Processo irreversível do tempo.
Não há castigo maior do que sobreviver em terras não-firmes.
A mãe, nossa terra, nos abraça com o seu ventre e nos aconselha para ir longe.
A nossa herança nômade é o que sufoca e dá esperança.
É guia transformador, é guia roxa, lilás, sem ouro e sem prata.
O universo existe, as relações existem, a memória persiste.
O esquecimento é como um animal que se arrasta no chão - demorado e relutante.
Contudo, a raiz nos segura em solo úmido.
Queremos ser tudo, queremos guerra.
Limpamos nosso cais, tiramos o limo
Para não restar qualquer dúvida sobre o nosso recomeço.

sábado, abril 12, 2014

não

Encontro
Encontro
Encontro
Encontro
Encontro
Encontro
Encontro
A palavra é o inferno.

quarta-feira, março 19, 2014

café e flores

Estou cansado de me perder no tempo. Sinto o mau gosto de chafé na boca. O cigarro e a luz acesa. Porque as coisas não se dispõem em minha volta como um amontoado de areia, sem me dar o trabalho de ajeitá-las em ordem ou descaso? Sei o que fazer, mas não faço. Ruptura é um negócio danado. Não sei explicar bem, mas no momento em que eu agia, o que estava a fazer teria consequências fatais. A cinza do cigarro deixou vestígios e as marcas naquele corpo são minhas. Mas é perfeitamente inútil ser pedante. Eu pensei nisso. Mas tudo ficou pelo caminho, como uma trilha perfeita para encontrar o assassino.  Estou olhando com desconfiança para esse quarto dilacerado. Quanta fúria poderia compor meu corpo. A julgar pelo que eu digo, teria pensando antes: isso muito me espanta. Não posso convencê-los. Quero só irritá-los com frases curtas e monótonas. Poderia cingir estes versos no volume mais alto. O que nos resta fazer agora? Um corpo no chão, sangue, uma trilha enorme de tabaco e outras quinquilharias. Meus dedos estão estalados na vidraça. Não vou mais agir. Conhecemos algumas razões para viver? Não estou, como ela, desesperado, porque nunca tinha esperado grande coisa de mim. Conservo a cabeça baixa. Calo-me.

terça-feira, fevereiro 18, 2014

o homem bom

Cerrava os olhos com força, porque sabia que no jogo da vida não entravam sentimentos, amor, essas coisas afáveis. O processo competitivo, neste período, parecia carecer de esboços. A vida era para ser lógica, objetiva e cansativa. O outro poderia ser no máximo o próximo inimigo. O conteúdo de sua vida, porém, era monótono, sem vida, sujeiras e respingos. O cotidiano implicava trabalhar os vários níveis de retórica, desarmonias e falta de ritmo, simultaneamente, percebia que não era capaz de sustentar um fio de continuidade e precisava trabalhar mais para vencer mais. Ligado em suas telas, ele regurgitava sua ânsia de ser dono de si, das ideias e de uma nação. Batia com a mão dura em seu teclado. Crescia em torno daquela mesa. Esbravejava e com uma solidão diária criava uma repulsa sobre todos os seres humanos. O olho arregalava, a garganta explodia, veias saltavam e desenhavam a forma de ódio que subtraía seu corpo. Voava para desacelerar e cair imeditamente em sua cadeira. Todos deviam correr do inimigo, mas ele não conseguia assustar, a não ser a si mesmo. O seu pessimismo perdia para o pessimismo. Sua união estável não confortava seu ego. Seu ego não confortava a si. Encontrava-se em bens, poucos bens, mas vontade de sobra para ter muitos bens. Sonhava pelo inferno da acumulação. Era o ódio sobre a terra e sobre os outros, ele precisava vencer, vencer. O tempo apertava o cinto e deflagrava seu estômago. O tempo passou, o tempo rugiu e o que ele conseguiu pegar no chão não vai pagar sua dívida eterna com a humanidade. O silêncio corrompe o medo, o silêncio desfaz o cão.

sábado, novembro 23, 2013

promessas de fé

Olhou para o copo e viu vibrações no ventre da água vindas de sua mão trêmula, cansada e insistente. No suposto vazio entre boca e o líquido sentiu um gosto de vapor quente. Os olhos fixos naquele vidro forjavam o dedo indicador do homem. No fundo do copo, gotas se cansavam e forçavam um caminho até o precipício. Gotejavam e escorriam até o joelho seco, de uma secura densa. Molhava o sumo que movimentavam aquela vida. Ela não queria se calar. Ele não queria matar. A loucura não se resolveria assim. Pegou a faca e amolou na chaira que também usava para matar porcos. Alguém insistiu e pegou em seu coração. Veio então a mancha escura dos dias que ele serviu ao campo. Hereditária dor. Em volta dessa terra existe luta. Sonho de seus metais. Pedra. Cor. Emboscada branca. Vamos festejar a miséria do picadeiro criado pelo inimigo. Guerra. Fogo. Explodiu nele a loucura de fazer o justo. Sua gente vai te amar. Viu no chão a esperança. Pedra na mão. Inimigo grudado na parede. Subiu e desceu montanha e no seu lombo carregava o mistério que não irá se mostrar. Meninada cantava de longe e o vento lhe trazia velhas recordações. Estrela nova. Sonhos circulando. Mente calma. Silêncio. O pai nosso. Sangue escorre em seu ombro.  Pés atrevidos soterram naquela areia fofa. É a loucura de ser. É o ser. Agora vem o frio, chegou a noite e a lua se aproxima para o aconchego.



quarta-feira, novembro 06, 2013

o tempo e o fogo

O que você fez com o grão de areia?
Dei-lhe junto com uma cama feita de pedraria.
Sapatilhas feitas a ouro, coral e couro.
Escravizei minhas recompensas para te servir.
O que você fez dona do tempo?
Só desejava ir ao campo, colher as flores do mato para lhe entregar.
Só desejava o sol, os ventos sem saber mesmo o porquê.
Brilhar, brilhar, esplandecer.
Vestida de vermelho escuro, é minha princesa.
Por onde foi em dia de Santa Bárbara?
Com doutores, dançou e evocou movimentos rápidos.
Bebeu o que tinha de mais quente, mordeu um pedaço de chifre.
Entrou sem pedir licença ao rei
E cantou as canções mais ligeiras.
De peito aberto e luz explosiva.
E eu sem presente em meus braços
O que você fez com o grão de areia?
Éramos eu e um cavalo
No seu galope bravio.
Pulando cerca e levando com o peito o arame.
Pisando em pedra moída
Escapando em leito de rio.
Meu alazão agora fugiu
Deixando pedaços de cauda e lenda.
Estou aqui com pé neste chão batido
Esperando o eterno entardecer
Afiando mais uma espada
Para um dia lhe entregar.



terça-feira, novembro 05, 2013

aldeia morta

Poeira na noite. A festa. O açoite. Lua cheia, amor. Agora é tarde.
O fruto do tempo entrou sem escolhas neste mundo, entre gritos e loucuras. Desejo contemplar a morte da escrita.
O silêncio. A consequência. Hoje, estou sem sorte.
A goteira no teto de vidro acerta o sopro que é a vida. Vou sussurrando até a Rua da Ajuda. Foi lá que me fizeram homem e inconsequente. Derradeiro murmúrio de lamentos. Aqui acaba, em novembro. Onde nasce o pássaro e morre o homem. O grande pai recebe seu filho com a mesma fúria que criará o mundo. Rejeita. Não deixa em paz. Não devia lhe procurar. Nem toda criança pode aprender. Nenhum povo precisa ser apenas só. Aldeia morta. Pedra vira fogo. Deus explode em raios. Para onde escapar nesta maré? Enxurrada sobre o sonho. Inventamos o mar.


quinta-feira, setembro 26, 2013

aos céus

Estou aqui parado no meio-fio.
Carros decolam para um lugar que desconheço.
Sigo reticente.
Somente sinto os meus dedos trêmulos.
Uma labareda escala e toma meu corpo.
É da mesma quentura da nossa noite.
Tenho saudade.
Em minha vida só vejo barulho.
Violenta, a vida, meus ouvidos.
Seguro meu guarda-chuva preto. Preto.
Em minha volta uma onda de sóis
Olhando para mim,
Sorrindo ou agredindo.
Estou em tudo.
O calor corrompe, eu sei.
Não quero acabar uma história de amor.
Reconheço o ritmo dos batimentos em meu pulso.
Diagnóstico feito.
Desacelero, desacelero.
O mar vira nuvens, o sol vira chuva,
E o guarda-chuva não está mais aqui.





segunda-feira, abril 29, 2013

centro

Hoje, no centro deste sofá me sinto engolido por meus desejos. Reprimidos ou não. Me sinto em um círculo fechado. Queima o fogo aqui dentro e rasga. Os cachorros latem lá fora. Abrem as asas já crescidas. Vejo um rio passando aqui embaixo. Olho por ele e vejo o fundo. Vejo imagens pra além da minha região abissal. Estou aqui em círculos. O sofá me agarra. Os sons explodem. Sinto tontura. Sinto alegria. Ternura antiga presa entre poeiras. Menino preso em seus carinhos. O ser homem. O recomeço. É todo dia, assim como respeitar. Me sinto abraçado. Com feridas. Seco. Calejado. A minha ternura ficou acumulada no tempo, passou e revirou.

terça-feira, abril 23, 2013

sem novidade pelos lados de cá


Não sentia a temperatura do corpo de cada pessoa que passava por mim. Em cada parede. Nada. Sem temperatura. Sem pessoas. Pelo corredor enorme que me levava do centro até a zona dos poderes eu me lambuzava de olhares. Estalados. Abestalhados. Qualquer fuga tem gosto diverso. Sentidos  pulverizados. Mas aqui não sinto calor. Nem Frio. Não deveria ter desvendado todos os sintomas do meu corpo. Meus medos. Diagnóstico pare homem? Sou o único culpado de ter essa falta. Sinto falta. Sem calor. Nada acontece. Não derreto. Corro, corro. Não suo. Me sinto serpente. Fria, fria, fria. Mas porque não calor? Sou eu. Olho no espelho passando pelas vidraças deste caminho. Olhos esbugalhados me desejam. Me desejam dentro de uma panela bem quente com tomates. Quente? Quem sente? Me diga onde eu vou. E corro, corro, corro. Suo? Não. Os sentidos escapam do meu peito e me falta sentir. Sorrisos! Risadas! Gargalhadas! Dou um soco para o alto e subo em cima do calabouço. Ha ha ha Quem pode me deter? Sou gato invisível nesse mundo canino. Quem me pega? Vem me pegar, filho da puta? Pode pegar que não sinto. Não sinto? Olhos baixos por todo horizonte em cima destes telhados. Aqui estou longe e sem perigo. Mas sou caça? Caça do oposto ou de mim? Gosto de misturar mim com qualquer outra coisa. De manhã queria ouvir um tango sem esperança. Isso! Não gosto desta coisa de esperança e ajuda! Sem sentido? Sem calor? Sigo assim. Sem temperatura.





sábado, dezembro 15, 2012

descanso

Bonito canto sobre as pedras
Vindo do sopro que é a vida.
Rio olhando para o céu
Este sentido da cria, viva.
Pássaro é esfinge de deus.
Só avoa quando cansa
Viaja para sobreviver
E canta para não morrer.
Reproduz e seduz.
Mantém a força da existência.
Sou cansado, mas não parto.
Enquanto inimigo,
Sou pacto comigo.
Respiro e sinto.

Busco aqui o sentido da vida.

quarta-feira, outubro 24, 2012

em são paulo nada vence uma carona

É fim do trabalho e começo do dia. Ele desabotoa um botão da camisa, agacha e refaz de maneira grotesca o laço nos cadarços de seu Rainha branco. Pega seu celular mequetrefe e engata seu fone de segunda. Na lista: depois de Black Sabbath vem Black Uhuru. Nada disso, pula para a letra C. Carpenters - Gold - Greatest Hits. Massa. Desce as escadas guiado pelo corrimão. Bate com a aliança de noivado no ferro antigo tentando suingar "Close To You" da banda californiana. Lástima. Desce em pulos para comemorar mais um dia. Menos um botão agora na camisa. Mais vida. Calçada. Passo a passo. Rápido. Tem 3 conduções pela frente. Não consegue dançar com Carpenters. Hora de trocar. Não tocar. Ela aparece. Susto. Ela. Sedutora. Reaparece. Ela que não era vista desde a festa de formatura em Porto Seguro. Ele desejou reencontrá-la por anos. Nunca pararam de trocar mensagens sobre amor, afeto e coleção de papel de carta. Era um carinho enorme. Que bom. Enfim aquele beijo roubado de volta. Aproximam-se. Esguiam-se.... e uma buzina bate ao fundo. É uma colega do trabalho em um pomposo táxi oferecendo carona. Ele sorri e diz para o amor: 'Nos vemos outro dia. Um beijo'. Corre feliz para sua carona noturna. Abre o restante da camisa e sorri feliz por saber que chegará em 40 minutos em seu lar.

segunda-feira, outubro 22, 2012

triste é não ver futuro

Outubro. Campos gerais. Chapadões. Frio seco. Rio fresco. Arraias negras com pintas brancas giram como discos. Estio. Ar transparente, céu azul. É primavera e pássaros namoram. Campos gerais. Estirões de mata à beira rios. Horizonte. Mata alta por onde passa um córrego de água boa e fria. Os pássaros gritam. Silêncio na planície verde clara. Ternura. De repente, o Uirapuru aparece, um grito, vem o chamando para a fêmea. Silêncio. E calmamente, a fêmea se aproxima. É a resposta. Eles conversam na sombra das árvores. O olhar parece vir do fundo de outros tempos. Reconhecem. Aproximam-se. Aqueles dois pontos de som se abraçam. O movimento das nuvens desconstrói a sombra comprometida. O vento faz ondas como penteado nas folhas verdes douradas pelo sol. A disponibilidade harmônica dos espaços azuis agora é enorme. Lá vai um pássaro Príncipe, e pousa no galho. De ventre cor de sangue ele enche de piados o ambiente. O Uirapuru, apesar do canto que domina toda a floresta, não tem a força de Príncipe. Tangará, segundo nome de Uirapuru, tem bico forte, pés exageradamente grandes e, às vezes, nos lados da cabeça, um desenho branco. É forte, mas parece opaco perto da beleza de Príncipe. Mas, debaixo das asas, ele leva uma caixa. Dentro da caixa, uma flauta. Dentro da flauta mora o prazer. Um dia voltará ao criador para devolver seu dom.   Esquecido entre o chão forrado de folhas, ele se esquiva do poder da realeza, e decola junto com sua fêmea em uníssono canto. As asas atropelam o ar, cortam o vento e os dois saboreiam a exuberância de serem os verdadeiros donos da floresta.

rio

o único gosto
que agora
sinto
é o gosto de suas
lágrimas

terça-feira, outubro 09, 2012

lapa

No teu escuro
Bato feito pedra

Te amasso na parede
Muro que quebra

Onde me escorro
E suo.

Somos feitos de vielas

(Parceria com Henrique Lederman)

domingo, outubro 07, 2012

são sebastião

Entre rios,
entre um retiro saudoso
ou um ribeirão preto,
a água caminha calmamente para o mar - quente e calada

sexta-feira, setembro 14, 2012

na velocidade do som

Ideia é aquela que cega, pega e dilacera. Corpo em bloco carrega um punhado de certezas. O peso do tempo leva um tanto de suspense.  Nos corredores brancos e escuros da vida, as passadas tentam agarrar um pouco de costumes. Intensamente e calmamente uma busca por culturas - que sejam as mais duras. O passo constrói um som nos corredores. Escutam? Estamos lá, agora, vencidos. É música. Onde você está pisando? O zumbido no ouvido soam como um trompete em Dó. Reverbera. Objetos correm por caminhos, e as ideias não querem parecer ideias. Atitude do sofrimento. Explosão. Coesão. Os passos apertam, a velocidade explode. O passo se perde. Se perde. É corrida por tempo presente. Um tempo que pesa, mas que seca quando está dentro. O corpo se movimenta e o balé começa. Agradeça o peso que cada um tem. Leveza. Trompete. Bailarinas saltam. Correria. O corredor nos aperta. Não exploda, não é hora, não agora. Não seja real. Não careça de costume. Não e não. A postura não mostra nada, nada. Seu rosto não existe. O cenário partido começa a fazer sentido para os olhos. Enxerga? Eu quero vocês. Quero a alma. Quero vocês.

terça-feira, setembro 04, 2012

chequem se não há mais nada velho, vencido, cheirando forte

Dentro dos meus olhos,
Corro na velocidade
De realizar um sonho.
Testo minha saudade
Nos jogos de cartas.
Sinto o alerta gritando!
Atenção na janela!
O urubu segue me olhando e,
vencendo.
Corro. Luz. Corrimão.
Escada descendo por mim.
Acabo na Bahia.
O sol escapa da pele
E só sinto o branco,
Pranto. Santo.
Corrida na porta principal.
Parafuso é mente.
Destaque.
Dente dilacerado
Que morde, assopra e corrói.
Fique contente,
Eu não sei o que está por trás de nós.

sexta-feira, julho 27, 2012

gestos universais


Lembro de quando fomos ver discos
Comer alguns quitutes árabes
Andar pelas ruas de são Paulo.
Amor próprio, puro.

Lembro o quanto sonhei com você.
Por vezes, pensei:
Encontrei.

Mas você sempre me assopra pra longe.
Que pena, eu que não devia ser tema.
Temer tanta insegurança.

Golpe forte. Peito quebrado.
Explodi. Corri.
Sou o horizonte adormecido.

Deixe que meu coração errante adentre
Na Bahia, atrás, na frente, em cima, em baixo,
Entre.

A vida obrigatoriamente sente calor, frio, fome e desejo sexual.

segunda-feira, julho 23, 2012

bem, eu não sou médico...


A palavra crise é muito pequena para o que vivemos.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Agora a tenho muda.
Distante.

Ela acaricia meu rosto, e não sente.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Enxergo um vulto enorme escuro.
É um corpo perdido e poucos sussurros.

A palavra crise é muito pequena para o que vivemos.
A voz, o corpo escuro. Os seus olhos infinitos.
Verde, alma, brasa e fogo.
Saudade do que não mais se têm.

Sou amante do drama,
Refém da esperança.
Tudo demorando em ser tão ruim.
Mas tento me acalmar, tento viver.

Pesadelo, correria, galo cantando.
Crianças choram.
A prateleira no quarto balança e parece ser a única razão. O tempo. O barulho
A palavra crise é muito pequena para o que vivemos.

Na medicina, crise é uma situação que conduz à melhora. Bem, eu não sou médico...

segunda-feira, abril 09, 2012

a espera de notícias

Eu não sou deste mundo e conto histórias. Tudo junto e sempre. Canto este pavor.  Mas eu escancaro, me abro. Sou cativeiro, entro e acerto as contas. Eu sou tolo, eu sou, eu sou. Passa gente, simplesmente. Eu sou tão frequente. Voo, voo.  Quando você me encontrar, espero sair deste lugar. Para ser diferente, latente. Esboço uma reação. Ardente. Sente? Sinto e volto para casa, meus olhos estão irritados. Eu ainda não consigo gritar. Essa coisa de provocar não dá. Não falem comigo, eu posso entender o castigo. O que está engasgado em minha garganta? Todo corpo explode, este é meu talento. Vou gritar, vou gritar!

quarta-feira, dezembro 07, 2011

ei, xará!

Um clarão explodiu com o balanço do trem. Olhos esmigalhados e a perda do sentido. O xará vai se segurando em diferentes pilastras.O calor sobe nos olhos e procura pelo caminho na estação da Sé. Fé. Gota, barulho, suor, vagão. Ele corre.
Uma luz passa pelos olhos e formam um recorte. Aperto, apelo e é hora de escapar. Blecaute em dois corpos. Fuga. Tucuruvi? Não. Tensão. Barra Funda. Palmeiras? Nem pensar. Ei, xará, que história é essa?
No corrimão, ele se segura. Barulho. Rojões. Violinos acompanham a batida do trem. Vem o agarrão. Ele aperta, abraça, amassa e perde. Grito! Corrida na saída principal. Sirene. Corpo palpita, aperta e é hora da partida? Corrida! Na ponta do pé esticado vem um sapateado sonoro. Desce a escada e tromba com aquele mesmo peito, ofegante e destoante. Olha o relógio mais uma vez. O metrô vai fechar e as pessoas vão atropelá-lo. O futuro está na porta principal lhe esperando. Garra nele, garra! Vai! Escancara!
Perdido no sentimento do tempo, ele corre na mente que o fode. Corre, babaca! Ele abraça, beija...Corre! O vagão está aí cheio de rostos da mesma pessoa. Eles saem como tiros na mente. Ela expôs para todos verem. Sintonia? Disritmia! Ciúmes do novo cantor de cálice. É isso, meu caro. Dedo apontado na cara e ódio. É um disco riscado? Peito partido? Dói? Disfarça então e aumenta o volume da repetição. Quão grande ela pensa que poderia ser? Faz um ano, faz.
Passo a passo, ele entorta um pouco as lembranças da noite em que não havia luz em quarto algum. Mete! Pode mastigar e sentir o gosto de sal. Suor. Roça a voz em seu cabelo. Roca, roca, roca. Corre, pilantra. Corre! Não adianta ir por aí, resiste na boca da noite o gosto. O gozo. Sente pura? Pula! Corrida pela estação.
Orquestra de trilhos, batida uniforme, pulsação dentro do corpo. Vácuo. Precário. A sirene toma conta dos ouvidos, não adianta tentar tampar com as mãos. Prezadíssimo ouvinte, não choca mais fazer o mesmo.  Não vai preservar a sanidade. O wonder se mistura na neblina e nada pode mais te salvar. A pele não pode pesar. Pega, pega... rapaz.


quarta-feira, novembro 30, 2011

sujeito tempo

O tempo para você não tem tempo. Tento achar e não pensar. Tempo proíbe e não faz.  Atento, o tempo pede tempo. Pele apavora, esquenta e assombra. Passo o tempo com calor e não afogo. Tempo contente é desejo. Lanço você com força de beijo. Tempo olha para frente. Por dentro é desassossego. Entro para dentro do tempo e passo mal. Tempo astral. Sei dos caminhos e o corpo cega quando toca. Tempo espalha e não nota. Ouve o pedido e entramos em contratempo. Tempo limite e cru. Tempo Dinheiro, quanto vale seu tempo? Tempo maluco pede o tempo. Tempo tempo tempo. Corrompo o medo. O que te move?
Coração dilacerado com coração dilacerado é bomba atômica que tempo não segura. Chuta a porta, bate a cara e morde os dentes. Na era do tempo, o que afoga, explode. Tempo é ilíada oportuna e não muda. Tempo é eterno. É agora. Imediatamente ou já foi.  Pulo o tempo como se tivesse jeito. Ele salta, fica, volta, espalha e abre uma careta. Escancara e brinca com a fé. Tampo o tempo e ele foge. Ele passeia pelas estações. Foge lá e vem pra cá. Tempo não tem noção. Tempo simplesmente é, e por isso, pode ser perigoso.






quarta-feira, julho 13, 2011

para se sentir mais perto de itamar assumpção

Com um cocar na cabeça e cantando Boa Noite, de Djavan, Itamar Assumpção se despedia do lugar onde transbordou todos os desejos de fazer música preta, brasileira e para todos.

Mais que um intérprete ou compositor, Itamar soube como ninguém domar o mundo perigoso que poderia ser o palco.

O documentário "Daquele Instante em Diante", de Rogério Velloso mostra isso com enorme capacidade. Estamos dentro e fora do palco de Itamar.

Sentimos quase na sua pele, numa sinergia de sensações, a dificuldade de ser Itamar Assumpção, em ser o primeiro e único artista popular a bater de frente o tempo todo com a indústria cultural.



Na pele do músico


Com Itamar não tinha meias palavras, só se essas pudessem ser transformadas em música.

O filme mostra a maneira dura e franca que ele tratava o público que o atrapalhava, e coloca frente a frente com seu amor pela natureza e família.

"Devia ser difícil ser Itamar Assumpção", sentencia Suzana Salles, vocalista que o acompanhou por quase toca carreira, em um momento do filme.

E realmente não foi fácil. O músico levou um estigma de "maldito" reducionista. Quem era o sucesso? O sucesso era Itamar Assumpção, como o mesmo disse.

Para dentro da sua banda Ísca de Polícia, ele levou suas diversas referências.

Nascido no interior de São Paulo, em Tietê, Itamar cresceu em Arapongas, no Paraná, e foi se recriar na capital paulista.

Uma bomba de emoções e situações. O homem caçado pela polícia resistia, mas também sentia. Sentia a dor que era ser Itamar, preto, Djavan, Roberto Carlos, Milton Nascimento e Ataulfo Alves e todas suas influências.

Sentia a amargura de um país em constante debate e repressão.

Itamar representava, no fim, todos. Era dono de uma capacidade de transformar qualquer coisa.

Orquídeas de Itamar

Cuidar das plantas era um de seus hábitos favoritos. E sua grande paixão eram as orquídeas.

Uma planta tão diversa quanta a própria carreira de Itamar, as orquídeas existem em quase todas as regiões do mundo e são altamente adaptáveis.

A paixão pelas plantas nomeou sua nova banda, um verdadeiro orquidário com

Tata Fernandes, Miriam Maria, Renata Mattar, Nina Blauth, Lelena Anhaia, Clara Bastos, Simone Sou, Geórgia Branco, e Simone Julian.

A banda Ísca de Polícia deu lugar às Orquídeas. Um novo momento e um Itamar em sua busca eterna pelo que há de mais precioso. Assim surgiu a trilogia "Bicho de 7 Cabeças".

| O grafite pelas ruas de São Paulo mostra a reverência pelo Nego Dito |

Um filme completo

Mas mais que mostrar a carreira do músico, passo a passo, o filme vai levando o espectador a acompanhar a história numa literal conversa na cozinha.

O cafezinho é o guia central desse papo, que vai delicadamente delinear os processos de vida do músico.

É ouro preto, como Itamar é para nossa música. E desse caminho passam depoimentos de grandes parceiros, como Alice Ruiz, Arrigo Barnabé, Luiz Tatit, Ricardo Guará, e inúmeros músicos que acompanharam Itamar.

As filhas Serena e Anelis Assumpção, acompanhadas por Zena, viúva de Itamar, mostram de onde vem os alicerces que sustentavam tanta fúria e amor.

"Sem a família, ele teria enlouquecido", diz Anelis em momento do filme.

Itamar não enlouqueceu, teve sempre a família por perto, passou os momentos difíceis com sua doença e a levou para dentro do palco.

Elke Maravilha, toda de branco, interpretava a morte. Itamar dizia: "Ainda cedo".

Uma imagem rara de alguém que não poupou ninguém no palco. Sair ileso de uma apresentação de Itamar era impossível.

E Rogério Velloso conseguiu o mesmo com "Daquele Instante em diante". Inesquecível e impecável.

O filme que abriu no dia 08 de julho a série Iconoclássicos, do Itaú Cultural, vai ficar um mês em cartaz em sessões com entrada franca nas salas do Unibanco Pompeia, Augusta e Frei Caneca, além de Curitiba, Fortaleza, Rio, Salvador, Santos e Porto Alegre, com sessões grátis em horário nobre.


Texto original: Natura Musical

quinta-feira, julho 07, 2011

da colômbia para o lado de cá

Tirei meio certo.
Decerto era o decreto
Que trouxe nesse retalho de papel.
Deserto ou perto.
Foi apenas um pedaço.
O correto.
Entro no concreto.
Sinto-me secreto
E não nego.
Parece,
Mas carece.
Se sei o que pensa nesse mundo,
Sou mudo, calado e confuso.
Contudo,
Declaro e dilacero
Seu riso com os braços
Nos seus peitos.
Escancaro o meu medo
E mostro seu jeito.
Me sinto esperto.
Na falta de mastigar,
Instigo seu berço.
Sei o que você herdou,
Porém não sei o que encontrei.
Hora do apreço e aperto.
Todas nossas mãos juntas
E um longo adeus.