sexta-feira, dezembro 07, 2018

vento sul

Deitar à sombra e ser feliz.
Hoje é dia de ser sincero
E se contradizer a cada minuto
Desagradando a si-próprio pela plena liberdade.

Você já tentou acordar mais cedo?
Viu alguém além de você?
Você já pensou em correr à beira mar?
Você já ouviu a suposta dor das águas ao bater na praia?

Nós, rasgados, somos um diálogo contínuo.
Quando os sinos oscilam fortemente na igreja
Nos faz lembrar que há vida amanhã de manhã.
Vamos ver as ancas sedutoras, o olhar pedinte do padre.

Daqui partiríamos até Jurujuba,
E seremos como o Ismael:
Por favor, faça por ele como se fosse por mim,
E ouça a voz que não ouviremos mais.

A vida é uma guerra civil em todas as esquinas.
Mas o fato é que sempre é verão no verão,
O outono vem depois fatalmente,
E há só um caminho para a vida, que é a vida.

O ar de repente pesa menos
E faz muito calor perto do corpo.
Haja colágeno protegendo
O carpo, o metacarpo e a falange.

Somos velhos?
O pior fato de envelhecer
É de não se apaixonar mais,
Talvez nunca mais.

Agora,
Nesta manhã com dúvida entre o sol e a tempestade
Todos os vadios parecem estar dormido em cima de nós
Enquanto os amantes beijam-se eternamente.

A raiva de não conter isto tudo,
Em contraponto ao poder,
Faz a gente pensar,
Sairemos impunes deste mundo?

A vida dói quanto mais se goza
E quando mais se forja histórias.
Vamos rir entornando os copos nos corpos,
Sentir como um rato roçando entre as coisas.

Faz quanto tempo que você não sai dentro de você?
Vamos nos esticar,
Soletrar o proibido.
Pra onde nos leva esse vento sul?

A tonicidade dos versos,
A prosódia presumida,
Tudo parece quadrado,
Quando parece que o mundo se perdeu.

Há quanto tempo existimos?

sexta-feira, novembro 23, 2018

um tacho de conhaque a luz acesa

Apenas um colapso
fará transbordar o berço do amanhã.
A gota no banheiro encanta as serpentes
que habitam este quarto-navio.

São vinte romances, cinco riachos, um pavio.
Mesmo que não haja voz,
deitamos e gritamos:
o homem certamente não sangra.

É como nuvem sem rumo
que busca a poesia destes tempos perdidos.
E nesta noite posta sobre a mesa,
um tacho de conhaque a luz acesa.

Vamos repousar a dor.
Furar o que somos,
extrair do solo
e esperar sem ter onde ficar nesta evocação.

Bebemos a manhã que, sequer, chegou!
Na parede ao lado,
um ramo de jasmins todo orvalhado,
descendo mais profundo que o abismo.

Respeitemos o tempo,
respeitemos o colapso,
respeitemos a demora,
vivemos o pavor.

quinta-feira, outubro 04, 2018

Glória

Sob teu peito eu te consolo de olhos fechados. Destino: Glória. Olho para você toda penteada, acelerada, aventurada. Mesmo que seu carinho venha em forma de tapa, eu te abraço e te insolo.  No balançar do vagão, de maneira desbaratinada, você retoca o fim da tua maquiagem cuidadosamente repetindo cada detalhe. Devota. O movimento embala seu cordão que passeia em meu rosto. Desenha arte, bate. Com uma sacola da compra do mês passado, você carrega docemente nossa tralha. Dois nacos de bambu, uma cera quente lacrada, um kit de esmaltes da Alfândega, cadernos meus amassados e um pouco de saudade daquele que fugiu de casa. Você ajeita o batom e depois começa uma insistente sessão de ansiedade. Batucando com as unhas coloridas na fresta da janela, vejo cores e seu desejo que tudo passe rápido. São 30 e poucos anos que nos separam.  Graças a Deus você existe. Me ofereço, o que for possível. Jogo meu peso ileso e sorrio. Você sabe me erguer com os braços, me balançar, me trazer para órbita. "Bom dia, filho, eu existo". Tão meiga, também objetiva, ligeira, mistura minha cabeça com carinho e cliques em formas de beijo na testa. São 7 da noite, o mundo espera, as famílias estão em suas casas, ninguém à espreita. O buraco do metrô nos solta para o mormaço do dia, já cansado, estilhaçado. Andamos sossegados pausadamente de mãos dadas. Você olha pra mim e cutuca a barriga. Gargalhada. Quem acredita? Sozinhos na Santa Amaro, damos um alô ao Armando da garagem, eu engraxo os sapatos com o pensamento e tento um gol de placa na traseira de um carro desmontado. Atordoada, resmunga e eu peço chicletes. Ganho chicletes. Sob teu manto azul eu me escondo, mais ou menos, reverencio a beleza. Meu amor é imenso. Tua dureza é incrível – densa e extensa.  Esse caminho tão pequeno e gentil nos abastece de mágica nos leva para esse lugar guardado: nosso cantinho, sem exagerar no diminutivo. Eu e você somos relâmpago nesta terra ingrata, uma química mirabolante: fósforo, liturgia e aço. Entramos com a porta entreaberta e nos conformamos com a falta de surpresas, banho, jantar, cabelo para secar. Eu deito ao seu lado e me consolo, com os olhos vermelhos, vou para seu espaço. Você canta. Minha cabeça metralhada, feita em pedaços, encontra a calmaria do silêncio da sua rítmica. Distribuo canções para meus sonhos e uma nuvem com seu cheiro me leva para onde nasce e vive todo o amor.

sexta-feira, junho 29, 2018

anoiteceu

"Parece remendos de um preguiçoso". Após o ímpeto, ela afastou rapidamente a xícara, transformando em enorme barulho aquela sala vazia. Coube ao homem respirar. Pausou e trouxe do fundo a esperança de lutar. Era como se fosse um luto, um fardo digladiar com os próprios vícios. Para que digladiar, se bom mesmo é cozer. No canto da mesa, um maço vazio de cigarro de quinta categoria. No lado inferior, uma perna trêmula pelos hábitos sórdidos.

A frase tumultuava aquela mente jacosa transmutada pelo tempo. Aquele espaço era esplendorosamente grande e inteiramente oco. Apenas uma mesa grande, onde eles estavam sentados, e um velho abajur na extrema direita. Com as mãos frias pelo ócio, o homem fixava o olhar em sua xícara de café. Batia, delicadamente, com a minúscula colher, em seu entorno. Trazia para aquele vazio um som que lembrava o barulho do trem, um ruído ancestral. Em nenhum momento ele procurou cruzar olhares. Apenas fixava os olhos abaixo do horizonte.

Pela janela, um raio de luz descia contornando a silhueta da mulher. O seu corpo fazia sombra no rosto do homem. Ela repetia a frase:"Parece remendos de um preguiçoso". Quanto tempo seria necessário para varrer essas palavras? Chacota. O homem não se preocupava, deixava o corpo se curvar, entrar para si, como se fosse uma lagarta em perigo. A dor de não ter resposta não existe igual. Observando o sol desmanchar no horizonte, já alaranjado pelo cansaço, ele apenas acenou a cabeça em silêncio. Era o fim, anoiteceu.

bom tempo

Pior do que viver, é acordar de um sonho bom.
É como tecer as mãos no rosto enrugado.
E se, de repente,
A gente apenas fingisse?

Fingimos o cansaço,
A dor,
A felicidade,
A bestialidade.

O silêncio na madrugada confunde.
E se, de repente,
Momentaneamente,
Nosso corpo apenas afundasse.

Brigamos entre lençóis,
Como caracóis
Emoldurando o senão
Que é a vida.

E se, de repente
A gente apenas esquecesse
O som,
O tempo bom.