sexta-feira, setembro 25, 2009

vila rica

Algo não me consola, assola e assalta cada centímetro de esperança. Móveis coloniais de uma vila não mais rica. Órgão de tubos cantam na igreja a esperança de um capaz. Jamais. Sentinela, vela e morte. Procuro o lado de uma expectativa de desbunde. Fera firo. Tempo vai me levar e unir em um caminho só. Julguei-me que ia sufocar, depois subitamente uma perversa alegria me explodiu. Tive vontade de ter irmãos e de beijar todos. O desbunde. Controverso o verso e crio o verbo. O tempo não vai me levar mesmo que me perco no sentido. Sua companhia enrega meu corpo, e exalo exatos atos. Aqui também posso ser parceria. Se meu sentimento desaparece em nuvens dissimuladas, o movimento fica aqui, e de mãos dadas vive seu vínculo. Desbundo para vida, mas hoje é dia de chorar.

terça-feira, setembro 22, 2009

um pouco de sol

Pede com sotaque de piedade
Um pouco de valor.
Já conhece um pouco do caminho,
Com sabor de vinho tinto.
Cor de abóbora
Estilhaça e não sobra.
Toque. Retoque.
Quebra e compassa.
Pele lisa esticada
Cria a cor que simplesmente cala.
Pouco de vermelho e branco.
Tempero.Toque. Retoque. Toque.
Vermelho por ser cor calor,
era cheiro.
Afaga fato do abraço fátuo.
Boca entrelaçada,
Cor única
De gosto nosso.
Pele Bruta. Abrupta Fome.
Beijo.
Aperto e pele,
Essa é a máxima, disse ela.
No último encontro,
folhas e pétalas

segunda-feira, setembro 07, 2009

perereca

A porta estava ali feita para entrar. Meu corpo doía por toda parte. Nos pés, sapatos lustrados por uma flanela laranja, daquelas de lustrar sapato mesmo. Continuando, pé encorajado e como diz o ditado, um pé de cada vez para qualquer caminhada. Porta desvinculada e seio arrepiado pelos ventos oriundos de uma tensa escuridão que parecia não ter fim. Não conseguia mais enxergar meus sapatos, não pelo fato de eu estar usando apenas uma das minhas lentes ¾, mas pela escuridão que chegava a ser úmida.
Por onde olhava via sons caminhando de mãos dadas com qualquer um. É a música na sua caminhada perversa. Meus olhos se acostumaram com o preto. No outro lado do salão, homens se espreitam no velho balcão com aquela pátina envelhecida da pior qualidade.
No centro da sala, pererecas saltitavam em formato bípede. Pulavam, socorriam, escorregavam e se seguravam com suas ventosas apropriadas e voluntariosas. Invasão anfíbia. Apesar de causarem certo nojo e pavor, pererecas são indicadores de um meio ambiente saudável. No contraponto, homens conversavam sobre a reputação das “verdinhas dançantes”, ato típico da sociedade machista. Cotovelos bem encaixados no balcão do bar procuravam conceitos espalhados no centro da pista. Uma perereca, capitã da equipe feminista de basquetebol trazia seu baseado, ia de encontro a seu macho e tentava puxar uma conversa:
_ Oi gato
_ Ah gata, nem vem, to ainda pensando naquilo, ta foda.
_ O quê?
_ Vou matar aquele cara que te comeu. Eu mato.

E o macho tremia seu queixo com mais um desejo assassino de comer a outra coxinha da verdinha, ou quem sabe a sobre coxa de anfíbia feminista do time de basquete.
Em fila indiana, primas da perereca capitã rumavam ao balcão e levavam suntuosos tapinhas no bumbum, e davam outros tapas no baseado. Tapa?
Logo procuravam um banheiro para se olharem. Embrenhadas em sustento meio sujo, suavam super na moda.
O banheiro em explosão se entupia com a vaidade anura. Meu corpo ia sendo esfregado sobre o chão, levado e esgotado na sarjeta.
E agora o que falta?
A feminista assassina da sua obra? O Sartre roçando sua língua na minha? O machista acotovelando seus desejos?
Que nada.
Fugi, e agora estou aqui.
Suado e sem muito queixo, corro por todo centro, tento escapar pela Barra Funda e me encorajo no caminho pré-Sé. Jesuítas me salvam?Santa Ceia? Santo Daime concretista.
No encontro da Rua Florêncio de Abreu com a Ladeira Constituição, prego meus olhos nos caranguejos que nascem nas calçadas sujas de ferramentas. Estou sendo cercado, é agora neste momento a hora do socorro.
Caranguejos pernambucanos destilam seu manguebeat pelo centro de São Paulo. É o morto, é a ruga, é meu marte.
Sapateio e desconverso. Os crustáceos me perseguem e invadem todas as ruas que podem acontecer e morrer. A 25 de Março vira um mar de caranguejos suculentos nutridos de pererecas oriundas de uma Amazônia pré-colônia. É a beleza, é a fuga, é a fuga, é a fuga.