sábado, dezembro 15, 2012

descanso

Bonito canto sobre as pedras
Vindo do sopro que é a vida.
Rio olhando para o céu
Este sentido da cria, viva.
Pássaro é esfinge de deus.
Só avoa quando cansa
Viaja para sobreviver
E canta para não morrer.
Reproduz e seduz.
Mantém a força da existência.
Sou cansado, mas não parto.
Enquanto inimigo,
Sou pacto comigo.
Respiro e sinto.

Busco aqui o sentido da vida.

quarta-feira, outubro 24, 2012

em são paulo nada vence uma carona

É fim do trabalho e começo do dia. Ele desabotoa um botão da camisa, agacha e refaz de maneira grotesca o laço nos cadarços de seu Rainha branco. Pega seu celular mequetrefe e engata seu fone de segunda. Na lista: depois de Black Sabbath vem Black Uhuru. Nada disso, pula para a letra C. Carpenters - Gold - Greatest Hits. Massa. Desce as escadas guiado pelo corrimão. Bate com a aliança de noivado no ferro antigo tentando suingar "Close To You" da banda californiana. Lástima. Desce em pulos para comemorar mais um dia. Menos um botão agora na camisa. Mais vida. Calçada. Passo a passo. Rápido. Tem 3 conduções pela frente. Não consegue dançar com Carpenters. Hora de trocar. Não tocar. Ela aparece. Susto. Ela. Sedutora. Reaparece. Ela que não era vista desde a festa de formatura em Porto Seguro. Ele desejou reencontrá-la por anos. Nunca pararam de trocar mensagens sobre amor, afeto e coleção de papel de carta. Era um carinho enorme. Que bom. Enfim aquele beijo roubado de volta. Aproximam-se. Esguiam-se.... e uma buzina bate ao fundo. É uma colega do trabalho em um pomposo táxi oferecendo carona. Ele sorri e diz para o amor: 'Nos vemos outro dia. Um beijo'. Corre feliz para sua carona noturna. Abre o restante da camisa e sorri feliz por saber que chegará em 40 minutos em seu lar.

segunda-feira, outubro 22, 2012

triste é não ver futuro

Outubro. Campos gerais. Chapadões. Frio seco. Rio fresco. Arraias negras com pintas brancas giram como discos. Estio. Ar transparente, céu azul. É primavera e pássaros namoram. Campos gerais. Estirões de mata à beira rios. Horizonte. Mata alta por onde passa um córrego de água boa e fria. Os pássaros gritam. Silêncio na planície verde clara. Ternura. De repente, o Uirapuru aparece, um grito, vem o chamando para a fêmea. Silêncio. E calmamente, a fêmea se aproxima. É a resposta. Eles conversam na sombra das árvores. O olhar parece vir do fundo de outros tempos. Reconhecem. Aproximam-se. Aqueles dois pontos de som se abraçam. O movimento das nuvens desconstrói a sombra comprometida. O vento faz ondas como penteado nas folhas verdes douradas pelo sol. A disponibilidade harmônica dos espaços azuis agora é enorme. Lá vai um pássaro Príncipe, e pousa no galho. De ventre cor de sangue ele enche de piados o ambiente. O Uirapuru, apesar do canto que domina toda a floresta, não tem a força de Príncipe. Tangará, segundo nome de Uirapuru, tem bico forte, pés exageradamente grandes e, às vezes, nos lados da cabeça, um desenho branco. É forte, mas parece opaco perto da beleza de Príncipe. Mas, debaixo das asas, ele leva uma caixa. Dentro da caixa, uma flauta. Dentro da flauta mora o prazer. Um dia voltará ao criador para devolver seu dom.   Esquecido entre o chão forrado de folhas, ele se esquiva do poder da realeza, e decola junto com sua fêmea em uníssono canto. As asas atropelam o ar, cortam o vento e os dois saboreiam a exuberância de serem os verdadeiros donos da floresta.

rio

o único gosto
que agora
sinto
é o gosto de suas
lágrimas

terça-feira, outubro 09, 2012

lapa

No teu escuro
Bato feito pedra

Te amasso na parede
Muro que quebra

Onde me escorro
E suo.

Somos feitos de vielas

(Parceria com Henrique Lederman)

domingo, outubro 07, 2012

são sebastião

Entre rios,
entre um retiro saudoso
ou um ribeirão preto,
a água caminha calmamente para o mar - quente e calada

sexta-feira, setembro 14, 2012

na velocidade do som

Ideia é aquela que cega, pega e dilacera. Corpo em bloco carrega um punhado de certezas. O peso do tempo leva um tanto de suspense.  Nos corredores brancos e escuros da vida, as passadas tentam agarrar um pouco de costumes. Intensamente e calmamente uma busca por culturas - que sejam as mais duras. O passo constrói um som nos corredores. Escutam? Estamos lá, agora, vencidos. É música. Onde você está pisando? O zumbido no ouvido soam como um trompete em Dó. Reverbera. Objetos correm por caminhos, e as ideias não querem parecer ideias. Atitude do sofrimento. Explosão. Coesão. Os passos apertam, a velocidade explode. O passo se perde. Se perde. É corrida por tempo presente. Um tempo que pesa, mas que seca quando está dentro. O corpo se movimenta e o balé começa. Agradeça o peso que cada um tem. Leveza. Trompete. Bailarinas saltam. Correria. O corredor nos aperta. Não exploda, não é hora, não agora. Não seja real. Não careça de costume. Não e não. A postura não mostra nada, nada. Seu rosto não existe. O cenário partido começa a fazer sentido para os olhos. Enxerga? Eu quero vocês. Quero a alma. Quero vocês.

terça-feira, setembro 04, 2012

chequem se não há mais nada velho, vencido, cheirando forte

Dentro dos meus olhos,
Corro na velocidade
De realizar um sonho.
Testo minha saudade
Nos jogos de cartas.
Sinto o alerta gritando!
Atenção na janela!
O urubu segue me olhando e,
vencendo.
Corro. Luz. Corrimão.
Escada descendo por mim.
Acabo na Bahia.
O sol escapa da pele
E só sinto o branco,
Pranto. Santo.
Corrida na porta principal.
Parafuso é mente.
Destaque.
Dente dilacerado
Que morde, assopra e corrói.
Fique contente,
Eu não sei o que está por trás de nós.

sexta-feira, julho 27, 2012

gestos universais


Lembro de quando fomos ver discos
Comer alguns quitutes árabes
Andar pelas ruas de são Paulo.
Amor próprio, puro.

Lembro o quanto sonhei com você.
Por vezes, pensei:
Encontrei.

Mas você sempre me assopra pra longe.
Que pena, eu que não devia ser tema.
Temer tanta insegurança.

Golpe forte. Peito quebrado.
Explodi. Corri.
Sou o horizonte adormecido.

Deixe que meu coração errante adentre
Na Bahia, atrás, na frente, em cima, em baixo,
Entre.

A vida obrigatoriamente sente calor, frio, fome e desejo sexual.

segunda-feira, julho 23, 2012

bem, eu não sou médico...


A palavra crise é muito pequena para o que vivemos.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Agora a tenho muda.
Distante.

Ela acaricia meu rosto, e não sente.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Enxergo um vulto enorme escuro.
É um corpo perdido e poucos sussurros.

A palavra crise é muito pequena para o que vivemos.
A voz, o corpo escuro. Os seus olhos infinitos.
Verde, alma, brasa e fogo.
Saudade do que não mais se têm.

Sou amante do drama,
Refém da esperança.
Tudo demorando em ser tão ruim.
Mas tento me acalmar, tento viver.

Pesadelo, correria, galo cantando.
Crianças choram.
A prateleira no quarto balança e parece ser a única razão. O tempo. O barulho
A palavra crise é muito pequena para o que vivemos.

Na medicina, crise é uma situação que conduz à melhora. Bem, eu não sou médico...

segunda-feira, abril 09, 2012

a espera de notícias

Eu não sou deste mundo e conto histórias. Tudo junto e sempre. Canto este pavor.  Mas eu escancaro, me abro. Sou cativeiro, entro e acerto as contas. Eu sou tolo, eu sou, eu sou. Passa gente, simplesmente. Eu sou tão frequente. Voo, voo.  Quando você me encontrar, espero sair deste lugar. Para ser diferente, latente. Esboço uma reação. Ardente. Sente? Sinto e volto para casa, meus olhos estão irritados. Eu ainda não consigo gritar. Essa coisa de provocar não dá. Não falem comigo, eu posso entender o castigo. O que está engasgado em minha garganta? Todo corpo explode, este é meu talento. Vou gritar, vou gritar!