terça-feira, novembro 08, 2016

o corpo

Caminhei de maneira preguiçosa até a longínqua privada no banheiro do quarto de hóspedes. No lugar do alívio, a dor. Como é impensável fazer muitos anos. O xixi desce quente, chega a esquentar o corpo todo e, no final, parece cortar feito um anzol enferrujado. É engraçado, pois essa dor me fez lembrar de uma história.

Dias desses, na menisquência da vida, estava passeando pelo facebook e encontrei o perfil de Marietta. Deus, pai. Como um empurrão dado pelo choque que levo enquanto urino, acabei adicionando sem querer o meu maior romance. O que pensará Marietta? Onde estará Marietta? Logo, imaginei, de duas, uma – ou eu apago esse trem ou não sei. Fiquei com o não sei. Descobri que Marietta havia casado com um colega norte-americano. O mister, inclusive, apoiava de forma clara a candidatura de Donald Trump. Bingo! Ela que sempre havia me chamado de extremista, por nunca mudar meu apreço pelos republicanos, estava com um apoiador de Trump. É hilariante, mas também interessante. O seu centro, pois bem, o que você acredita ser o meio, vai de acordo onde fica seu extremo. Só o seu extremo pode medir o meio alheio. Essa é uma linha exata e particular. Agora, ela entendia tudo que eu falava sobre o poder radical dos Democratas, principalmente após a falsa queda do comunismo no final do século XX. Nesse momento, estávamos juntos no nosso meio. O único possível, cara pálida.

Toda essa conversa está me dando fome, entretanto isso também me faz lembrar das minhas "colegas" hemorróidas. Deu-me vontade também de dançar. Lembrei de Marietta, dos bailes de foxtrotes, muito antes de me casar com Inês. Recordei as sardinhas de suas costas, da pele macia e rubra. Que imagem mais pueril o velhote está tendo aqui nesse momento. Hahahaha. Olha, você deve estar me julgando, mas não minto.

Caracoles! Dias desses fui até o Jockey e senti outra sensação de perda. Vocês têm a ideia do desinteresse dessa nova geração com o melhor dos jogos e lazeres? Meu sobrinho fala que é um tal de Poker Online a bola da vez. Meu vizinho disse também que agora existem sites com vários números no nome que são a coqueluche das apostas. Apostar de casa? Sem parar? Pra quê? Um colega de café disse que agora o dinheiro deve ser aplicado em fundos que servem como "aceleradoras" de startups. Bullshit. Velocidade para mim é o meu cavalo Burke, em homenagem ao excelentíssimo Edmundo Burke, rasgando aquele chão que é minha própria memória. Como dizia o filósofo Nenem Prancha: "Quem corre é a bola, não o jogador". Sai pra lá aceleradoras, apostas online e qualquer forma de me distanciarem do meu romance.

Veja bem, o mundo mudou, não sabem nem mais o quê é trote, imagina foxtrote. Ninguém deve perder tempo ligando para os Bombeiros? Estou distante ou caduco? Aliás, Marietta deve estar achando tudo isso um trote. Estou há 40 anos desaparecido e casado com uma pessoa que não conheço. A última vez que toquei em Inês foi em nossa lua de mel. Tive meus romances extracurriculares, né, camarada. Bebi bastante em alguns momentos. Não que eu ficasse naquela coisa de orgia que sambista velho sempre canta, mas eu cheguei a experimentar objetos a mais numa relação. Compreende? Estou aqui sendo franco, já mijo sem querer mesmo nas calças. Dias desses, assustei-me com um rojão e foi aquele aguaceiro danado. Isso é experiência, meu caro. O que será que Marietta acharia disso? Como posso me desculpar? Digo a ela qualquer coisa? Talvez, olhando esse velho, ela não dará uma cusparada, como da última vez. Talvez, talvez. Nada mais certo do que a dó. Venha cá. Você sabe o que vai ter dó, né? Seu cérebro já percebe antes de ver a imagem. Criança remelenta, pé descalço, na África? Dó. Velho, hemorroida, sem as cordas vocais, xixizento, meio curvo? Dó! Tomara. Taí, a equação. Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim, Marietta.

Nesse tempo todo, o meu pênis voltou a queimar. É mais um jato daquele líquido amarelo efervescente tomando conta do meu corpo e me mandando para aquele retângulo com azulejos coloniais. O que pensarei no próximo xixi? O que rememorarei na evacuação seguinte? O problema não é a dor, mas o que ela é sempre carregará. Boa noite.