quarta-feira, dezembro 07, 2011

ei, xará!

Um clarão explodiu com o balanço do trem. Olhos esmigalhados e a perda do sentido. O xará vai se segurando em diferentes pilastras.O calor sobe nos olhos e procura pelo caminho na estação da Sé. Fé. Gota, barulho, suor, vagão. Ele corre.
Uma luz passa pelos olhos e formam um recorte. Aperto, apelo e é hora de escapar. Blecaute em dois corpos. Fuga. Tucuruvi? Não. Tensão. Barra Funda. Palmeiras? Nem pensar. Ei, xará, que história é essa?
No corrimão, ele se segura. Barulho. Rojões. Violinos acompanham a batida do trem. Vem o agarrão. Ele aperta, abraça, amassa e perde. Grito! Corrida na saída principal. Sirene. Corpo palpita, aperta e é hora da partida? Corrida! Na ponta do pé esticado vem um sapateado sonoro. Desce a escada e tromba com aquele mesmo peito, ofegante e destoante. Olha o relógio mais uma vez. O metrô vai fechar e as pessoas vão atropelá-lo. O futuro está na porta principal lhe esperando. Garra nele, garra! Vai! Escancara!
Perdido no sentimento do tempo, ele corre na mente que o fode. Corre, babaca! Ele abraça, beija...Corre! O vagão está aí cheio de rostos da mesma pessoa. Eles saem como tiros na mente. Ela expôs para todos verem. Sintonia? Disritmia! Ciúmes do novo cantor de cálice. É isso, meu caro. Dedo apontado na cara e ódio. É um disco riscado? Peito partido? Dói? Disfarça então e aumenta o volume da repetição. Quão grande ela pensa que poderia ser? Faz um ano, faz.
Passo a passo, ele entorta um pouco as lembranças da noite em que não havia luz em quarto algum. Mete! Pode mastigar e sentir o gosto de sal. Suor. Roça a voz em seu cabelo. Roca, roca, roca. Corre, pilantra. Corre! Não adianta ir por aí, resiste na boca da noite o gosto. O gozo. Sente pura? Pula! Corrida pela estação.
Orquestra de trilhos, batida uniforme, pulsação dentro do corpo. Vácuo. Precário. A sirene toma conta dos ouvidos, não adianta tentar tampar com as mãos. Prezadíssimo ouvinte, não choca mais fazer o mesmo.  Não vai preservar a sanidade. O wonder se mistura na neblina e nada pode mais te salvar. A pele não pode pesar. Pega, pega... rapaz.


quarta-feira, novembro 30, 2011

sujeito tempo

O tempo para você não tem tempo. Tento achar e não pensar. Tempo proíbe e não faz.  Atento, o tempo pede tempo. Pele apavora, esquenta e assombra. Passo o tempo com calor e não afogo. Tempo contente é desejo. Lanço você com força de beijo. Tempo olha para frente. Por dentro é desassossego. Entro para dentro do tempo e passo mal. Tempo astral. Sei dos caminhos e o corpo cega quando toca. Tempo espalha e não nota. Ouve o pedido e entramos em contratempo. Tempo limite e cru. Tempo Dinheiro, quanto vale seu tempo? Tempo maluco pede o tempo. Tempo tempo tempo. Corrompo o medo. O que te move?
Coração dilacerado com coração dilacerado é bomba atômica que tempo não segura. Chuta a porta, bate a cara e morde os dentes. Na era do tempo, o que afoga, explode. Tempo é ilíada oportuna e não muda. Tempo é eterno. É agora. Imediatamente ou já foi.  Pulo o tempo como se tivesse jeito. Ele salta, fica, volta, espalha e abre uma careta. Escancara e brinca com a fé. Tampo o tempo e ele foge. Ele passeia pelas estações. Foge lá e vem pra cá. Tempo não tem noção. Tempo simplesmente é, e por isso, pode ser perigoso.






quarta-feira, julho 13, 2011

para se sentir mais perto de itamar assumpção

Com um cocar na cabeça e cantando Boa Noite, de Djavan, Itamar Assumpção se despedia do lugar onde transbordou todos os desejos de fazer música preta, brasileira e para todos.

Mais que um intérprete ou compositor, Itamar soube como ninguém domar o mundo perigoso que poderia ser o palco.

O documentário "Daquele Instante em Diante", de Rogério Velloso mostra isso com enorme capacidade. Estamos dentro e fora do palco de Itamar.

Sentimos quase na sua pele, numa sinergia de sensações, a dificuldade de ser Itamar Assumpção, em ser o primeiro e único artista popular a bater de frente o tempo todo com a indústria cultural.



Na pele do músico


Com Itamar não tinha meias palavras, só se essas pudessem ser transformadas em música.

O filme mostra a maneira dura e franca que ele tratava o público que o atrapalhava, e coloca frente a frente com seu amor pela natureza e família.

"Devia ser difícil ser Itamar Assumpção", sentencia Suzana Salles, vocalista que o acompanhou por quase toca carreira, em um momento do filme.

E realmente não foi fácil. O músico levou um estigma de "maldito" reducionista. Quem era o sucesso? O sucesso era Itamar Assumpção, como o mesmo disse.

Para dentro da sua banda Ísca de Polícia, ele levou suas diversas referências.

Nascido no interior de São Paulo, em Tietê, Itamar cresceu em Arapongas, no Paraná, e foi se recriar na capital paulista.

Uma bomba de emoções e situações. O homem caçado pela polícia resistia, mas também sentia. Sentia a dor que era ser Itamar, preto, Djavan, Roberto Carlos, Milton Nascimento e Ataulfo Alves e todas suas influências.

Sentia a amargura de um país em constante debate e repressão.

Itamar representava, no fim, todos. Era dono de uma capacidade de transformar qualquer coisa.

Orquídeas de Itamar

Cuidar das plantas era um de seus hábitos favoritos. E sua grande paixão eram as orquídeas.

Uma planta tão diversa quanta a própria carreira de Itamar, as orquídeas existem em quase todas as regiões do mundo e são altamente adaptáveis.

A paixão pelas plantas nomeou sua nova banda, um verdadeiro orquidário com

Tata Fernandes, Miriam Maria, Renata Mattar, Nina Blauth, Lelena Anhaia, Clara Bastos, Simone Sou, Geórgia Branco, e Simone Julian.

A banda Ísca de Polícia deu lugar às Orquídeas. Um novo momento e um Itamar em sua busca eterna pelo que há de mais precioso. Assim surgiu a trilogia "Bicho de 7 Cabeças".

| O grafite pelas ruas de São Paulo mostra a reverência pelo Nego Dito |

Um filme completo

Mas mais que mostrar a carreira do músico, passo a passo, o filme vai levando o espectador a acompanhar a história numa literal conversa na cozinha.

O cafezinho é o guia central desse papo, que vai delicadamente delinear os processos de vida do músico.

É ouro preto, como Itamar é para nossa música. E desse caminho passam depoimentos de grandes parceiros, como Alice Ruiz, Arrigo Barnabé, Luiz Tatit, Ricardo Guará, e inúmeros músicos que acompanharam Itamar.

As filhas Serena e Anelis Assumpção, acompanhadas por Zena, viúva de Itamar, mostram de onde vem os alicerces que sustentavam tanta fúria e amor.

"Sem a família, ele teria enlouquecido", diz Anelis em momento do filme.

Itamar não enlouqueceu, teve sempre a família por perto, passou os momentos difíceis com sua doença e a levou para dentro do palco.

Elke Maravilha, toda de branco, interpretava a morte. Itamar dizia: "Ainda cedo".

Uma imagem rara de alguém que não poupou ninguém no palco. Sair ileso de uma apresentação de Itamar era impossível.

E Rogério Velloso conseguiu o mesmo com "Daquele Instante em diante". Inesquecível e impecável.

O filme que abriu no dia 08 de julho a série Iconoclássicos, do Itaú Cultural, vai ficar um mês em cartaz em sessões com entrada franca nas salas do Unibanco Pompeia, Augusta e Frei Caneca, além de Curitiba, Fortaleza, Rio, Salvador, Santos e Porto Alegre, com sessões grátis em horário nobre.


Texto original: Natura Musical

quinta-feira, julho 07, 2011

da colômbia para o lado de cá

Tirei meio certo.
Decerto era o decreto
Que trouxe nesse retalho de papel.
Deserto ou perto.
Foi apenas um pedaço.
O correto.
Entro no concreto.
Sinto-me secreto
E não nego.
Parece,
Mas carece.
Se sei o que pensa nesse mundo,
Sou mudo, calado e confuso.
Contudo,
Declaro e dilacero
Seu riso com os braços
Nos seus peitos.
Escancaro o meu medo
E mostro seu jeito.
Me sinto esperto.
Na falta de mastigar,
Instigo seu berço.
Sei o que você herdou,
Porém não sei o que encontrei.
Hora do apreço e aperto.
Todas nossas mãos juntas
E um longo adeus.

quarta-feira, julho 06, 2011

o mar de são paulo
não é assim tão distante

O clarão?
Não.
Branco como cega,
Nega.
Entre, por favor,
Andor.
Adorar porque
Se o mar não tá
para gente.
Urgente!
Trovão nas areias.
Sossego..
A porta principal natal
Está no caminho.
O ninho...
Agora para com esse negócio.
O mar não está para ócio.
Sirene!
O mar está para peixe
Mas deixe o que quiser.
Se não vier,
Não estrague.
E se quiser,
Espalhe!

domingo, junho 26, 2011

um trem de passagem

sábado entre barreiras,
mastigo meu medo
com o medo do sofrer.

uma vitória sempre é uma derrota,
o choro canino não serve como lamento.
entre pessoas, procuro um pouco de caminho.

o que falta em mim, em você
ou dentro desse lugar?
A caneta não entende e o tempo passa.

o vento vai varrendo essa necessidade,
desde ser o que não pode ser
de mexer e doer sem saber o porquê.

congelo meu ânimo nesse momento,
sou a dor de passagem
como uma banda marcial barulhenta.

não sei se devo ir para o nosso norte.
o tempo extermina o mito
e agora me calo.

domingo, maio 22, 2011

ao lado de vera cruz

Moreré chama acará-disco.
Itaparica me leva a ponta de areia
O vento em seu lugar.

Crença em Daniela
Desejo dentro de Djavan
Alumbramento na visão

Vila velha é
Caminho sem volta
Luta, guerra e fé

Santa fé dos Palmares
Mares, lugares e azul
Semitom.

Sinto-me brasileiro.
Vilarejo, fé e corte.
Areia branca aqui é sentinela.

Igreja canta
e lá vem o Cristo
da paz e orixás

domingo, março 27, 2011

o poder do erro

Em seu quarto, Gabriela colecionava pudores e amores colocados em móveis tipicamente de uma pessoa estridente.
Um sofá azul com um buraco no meio era pano de fundo do quarto desmantelado pelos seus próprios ócios. Ele era objeto de histórias e companheiro de noites mal dormidas.
Do lado esquerdo do quarto, um guarda-roupas com adesivos oriundos de um caso mal acabado com um ex-namorado.
Para completar a orquestração do dormitório, uma janela a direita tremia, balançava e lembrava um Miles Davis com surdina e desafinado. Ela tolerava.
Gabriela era de tolerar, era jovem demais para sua inteligência e imatura demais para sua existência.
No centro, um divã sofria com seu tempo de castigo, abraçava a pele de Gabriela e entrelaçava desejos e receios. Era seu único lar.
Com nome de arcanjo, ela se sentia rainha de si e das pessoas. Sabia a tristeza e a felicidade de ser o que era.
Hoje, nesta manhã, ela acordou e foi lavar o rosto no banheiro que fica ao fundo da pensão. Foi batucando os passos em laços de bolero até chegar calmamente ao local. Era uma rotina que escapava dos pensamentos da moça.
Delicadamente ela abria a torneira e não encontrava mais água.
Gabriela se olhava no espelho e via um imagem opaca e pálida. Sua boca parecia não existir. Era tão clara que coincidia com sua pele perdida na falta de tesão.
Ímpeto que moveu Gabriela por anos.
Suas mãos, agora trêmulas, apesar de seus 24 anos, ressentia o medo de se tocar e cruzar esperanças.
Tentava piedosamente colocar a mão no rosto e via no espelho ele se desmanchar.
Gabriela desaparecia no movimento do calor de suas mãos.
Suas mentiras, concessões e medos levavam para correr sua própria sombra.
Perdida dentro do sentido, Gabriela se adiantava e apressava a dor de desaparecer literalmente naquele cubículo recheado de azulejos coloniais.
No chão, todos labirintos apareciam em diferentes cores, juntavam em cada retalho de piso. Pisoteava o ego inflado que acabará naquele momento. Gabriela tentava ajoelhar e buscar o que fez com sua vida, o que decidiu e o que negou para si.
Em desespero, ela buscava o que fugiu e o que mentiu - Gritava dentro do seu peito a decisão final de se deixar escapar.

sexta-feira, março 25, 2011

no zum zum

Um dia você para de aprender e para de saber o quanto não precisa ser. Saber, pensar e tentar. O corpo não precisa pesar. A temperatura do pensamento vai de encontro a todos os intereresses. Contra ataque - Situação penosa e perigosa. Situo o medo fincado como um ponto no globo. É daqui ou dali? O cerco fechou e os sentimentos estão alavancados em somas de durezas. Trêmulo até onde os ossos escapam do corpo, a voz tenta lampejar gritos de socorro em um lugar perdido. Agora, pedaços da vida semeiam seus últimos suspiros de desejos. Agora não é hora. A hora da parada já foi. A partida parte-me. A mente embrulha em seu fim inderteminado. A leveza do corpo clareia, e o céu definitivamente toma conta do mundo.

sexta-feira, março 11, 2011

para te amar

eu sou o que persiste
em grandes desamores na vida.
sem alegria para sorrir
sem um barco para partir,
sou semeador de sonhos, e portanto, compactuo com nossa distância.
céu, o campo e o mar,
transbordo na riqueza itinerante de ser o que não posso ser.
o soluço acabou e a noite parece não ter fim,
sou um calabouço fundo e frio.
um pedaço de destino sem amarras.
sou um peito corroído por não deter o que há de se deter dentro de mim,
o fogo e a fúria de querer transformar,
o que é há para amar.
sou o corpo cansado e detonado.
respiro pela falta de magnitude dos meus atos,
respiro verdadeiramente só para te amar.

sábado, janeiro 15, 2011

a saudade

Mantenho-me em meu único momento de existência. Parado, confuso e com os olhos grudados em um futuro que não existe. Em minha volta, encontro entalado em minha mente uma coleção de pesadelos malfadados e mal falados. Contorno meu rosto, e procuro algum espaço além das falhas de uma barba repartida por falta de hormônios. Homônimo a mim, cantarolo aquela música que nunca existiu.
Sou um homem sem passado e, portanto sem futuro e sem escolhas. Sou um buraco negro dentro de mim em um momento que não tem sentido. Neste mundo estranho, com estranhos, não me sinto parte daqui.
Eu sei que só posso lutar para isso acabar. Mas o fim escapa das minhas mãos na mesma velocidade do meu sentimento. A memória emocional, a mais rudimentar sensação de existência, é a mais profunda e difícil de deter.
Atiço minha fantasia e coloco novamente minhas mãos em minha face. Eu não sei, eu não sei de qual realidade você, e eu, estamos pensando. Tenho uma saudade eterna.

domingo, janeiro 09, 2011

o que distingue?

Nesse alvorecer não quero pressa,
Quero jogar meu braço no mundo
E tornar o minuto em você.

Dentro do juízo,
Dormimos bem.
É o primeiro dia do ano.

Os sentidos que nós deixamos,
Tomam conta desse pedaço
De fim de festa.

A ausência me transpõe em vontade.
O ar sobe,
E o peito escorre.

Desespero se apaga.
Sonho e lua cheia não se acabam?
Enfim, o dia renasce.

Pra que mentir?
O que distingue
Você de você?

Sol solidão.
Num canto, você canta
No outro você é tanto.

Até que hoje o dia tem cores
Ainda não vistas por mim,
Como é bom que você só exista neste dia de sol.

Deixei tudo e o nada
De alguém que queria se livrar
Do dia de sentir.

E você veio com esse gosto na boca,
Enquanto o outro você
Não entendia nada.

Você é tudo e o todo,
E isso faz os nossos desejos
Se transformarem em mundos.

Ela desmentiu,
E puniu qualquer forma de amor.
Já você contou e assumiu qualquer forma de transpor.

A roda gira,
E o canto pra lá do fim do mundo
Nos espera.

Na ponta da praia,
Encontramos uma casa para nós,
Cheia de prata e paz.