quinta-feira, outubro 04, 2018

Glória

Sob teu peito eu te consolo de olhos fechados. Destino: Glória. Olho para você toda penteada, acelerada, aventurada. Mesmo que seu carinho venha em forma de tapa, eu te abraço e te insolo.  No balançar do vagão, de maneira desbaratinada, você retoca o fim da tua maquiagem cuidadosamente repetindo cada detalhe. Devota. O movimento embala seu cordão que passeia em meu rosto. Desenha arte, bate. Com uma sacola da compra do mês passado, você carrega docemente nossa tralha. Dois nacos de bambu, uma cera quente lacrada, um kit de esmaltes da Alfândega, cadernos meus amassados e um pouco de saudade daquele que fugiu de casa. Você ajeita o batom e depois começa uma insistente sessão de ansiedade. Batucando com as unhas coloridas na fresta da janela, vejo cores e seu desejo que tudo passe rápido. São 30 e poucos anos que nos separam.  Graças a Deus você existe. Me ofereço, o que for possível. Jogo meu peso ileso e sorrio. Você sabe me erguer com os braços, me balançar, me trazer para órbita. "Bom dia, filho, eu existo". Tão meiga, também objetiva, ligeira, mistura minha cabeça com carinho e cliques em formas de beijo na testa. São 7 da noite, o mundo espera, as famílias estão em suas casas, ninguém à espreita. O buraco do metrô nos solta para o mormaço do dia, já cansado, estilhaçado. Andamos sossegados pausadamente de mãos dadas. Você olha pra mim e cutuca a barriga. Gargalhada. Quem acredita? Sozinhos na Santa Amaro, damos um alô ao Armando da garagem, eu engraxo os sapatos com o pensamento e tento um gol de placa na traseira de um carro desmontado. Atordoada, resmunga e eu peço chicletes. Ganho chicletes. Sob teu manto azul eu me escondo, mais ou menos, reverencio a beleza. Meu amor é imenso. Tua dureza é incrível – densa e extensa.  Esse caminho tão pequeno e gentil nos abastece de mágica nos leva para esse lugar guardado: nosso cantinho, sem exagerar no diminutivo. Eu e você somos relâmpago nesta terra ingrata, uma química mirabolante: fósforo, liturgia e aço. Entramos com a porta entreaberta e nos conformamos com a falta de surpresas, banho, jantar, cabelo para secar. Eu deito ao seu lado e me consolo, com os olhos vermelhos, vou para seu espaço. Você canta. Minha cabeça metralhada, feita em pedaços, encontra a calmaria do silêncio da sua rítmica. Distribuo canções para meus sonhos e uma nuvem com seu cheiro me leva para onde nasce e vive todo o amor.