quinta-feira, outubro 01, 2015

boleros

Abriu os olhos regurgitando os excessos do dia anterior, em um cansaço cheio de emoções e urgências. Sentiu-se como um saco de batatas, pesado e esparramado por uma cama úmida de suor. Armado com o resto de café do dia anterior, o homem reconheceu o calor dos pelos de Lixo, seu cachorro nada de estimação que recebeu este nome por suas atividades noturnas ilícitas pelas ruas do bairro. Acariciou as pelancas gordas do animal causando enorme satisfação. Dali tudo não parecia tão ruim. O teto girava em espiral como uma canção tribal. Tinha cores, tambores, gritos, tiros de Bacamartes. O homem se sentia silencioso como se fosse um náufrago de uma vida que se esgotava sem que aparecesse uma ilha salvadora no horizonte. Aquele começo de tarde parecia ter 7 mil anos. Olhava pela janela a movimentação da cidade e seus telhados portugueses.  Percebia uma obra maciça ao lado para a construção de mais um novo empreendimento para "salvar" a honra do centro local. O projeto significava tirar seus moradores centenários para repor com bancos, prédios espelhados, menos vida, menos cheiro, mais dinheiro. O resumo do fim do mundo é muito longo para apenas uma encarnação. Saber que os prédios antigos continuavam ali, envelhecidos e sujos, era sempre um alívio, pois o fazia pensar que restavam coisas imutáveis no mundo, capazes de navegar incólumes entre as turbulências do tempo e da história. A cada explosão, o homem fechava os olhos. Desejava não ser mais um fio de desesperança. Para fugir do colapso, ele deixou a mente vagar, e ela encalhou na imagem fantasmagórica de Dalva de Oliveira cantando: "Meu viver é tão triste/ É um vale de dor/ O que minha alma assiste/ É ausência de amor", trechos de um bolero perdido da não menos perdida dupla Hilton Simões e Luis Lemos, presos em formato de 78 rotações que não os deixou escapar para o universo dos 33, muito menos CDs e spotifys. Com seu habitual apreço pelas suposições, negava-se admitir que aquela lembrança era um chamado do passado. A mente se negava envelhecer, caso isso ocorresse, um salto pela ventana era a solução rápida para qualquer infortúnio. Mas seria maravilhoso demais morrer com um bolero tocando em seu mundo. Rejeitou a proposta e se levantou. Nada poderia ser pior do que ser perfeito.

segunda-feira, março 02, 2015

terra

Um cheiro amargo de café passeia por esse quartinho escuro. No canto esquerdo deste inóspito lugar, um armário, presente dos meus vizinhos do andar de baixo, continua repleto de poeira, exausto e mal usado. Um espelho daqueles de comprar em loja de R$ 1,99 continua ali todo torto, mas agora todo enferrujado pelo tempo. O corpo corrói. Quando eu cheguei por aqui tinha uma bolsa enorme de desejos. Listei cada um deles como faço para as compras na feira de produtos ao fundo de casa. Conheci muitas pessoas, locais e espaços que eu não sei agora descrever o que eram. Acho que às vezes visitei o inesperado, o vácuo, o buraco. Um eco constante me remete a um motor industrial sempre afinado na mesma nota. Não existe razão para um lugar como este. As paredes são frias, o ar é meloso e exausto. A cama persiste em pender para o lado esquerdo. Tudo por causa do estrado que perdeu um de seus dentes. A janela continua sendo um espaço para fuga, mas o recente prédio de 38 andares, que destruiu a casa dos meus 20 vizinhos, não me deixa ver nada. Apenas sinto a umidade, a sensação ruim de ficar encaixotado por uma cidade que não respeita. Fiquei sabendo que tem um abaixo-assinado para cortar todas as árvores da rua. Também pudera, elas foram eleitas as maiores inimigas deste verão. Já pensei em organizar uma passeata para descolar algum trocado com fanáticos por lugares repugnantes. De cima pra baixo todo mundo é ninguém. Vou nessa marcha de soldado, neste cúmulo de azar, neste embaraçoso desprazer. Piso sem ver no que me sustenta.

quinta-feira, fevereiro 26, 2015

trapiche

São horas da noite.
Na cama deserta
A mão tateia
Seios fartos
derramados pelo corpo
Rapé manchado no lençol
Espaço preto

Sotaque francês
Com gosto de abará
Pimenta da Costa
Eleva a sabedoria
Dos seus olhos miúdos.
Grão do paraíso
Perdido em Mato Dentro.

Algo me diz
Que amanhã lá fora 
A coisa irá mudar
Outro lugar estarei
Onde uma estrela caiu
E eu não tive que acordar
No trapiche, ao quebra-mar

O céu está cheio de estrelas,
A lua hoje não veio,
Para esta noite tão clara.
Ao fundo,
Penso na forma da cor
Aqui perto do mar, no botequim
ou apertando o lençol.

Vem o vento
Que levanta areia.
Fico curvado no tempo
Vendo as velas derrubarem barcos.
Tempestade.
Os olhos ardem,
E os músculos retesam. 

Meu abraço trovoa
Penso em esperanças para teus olhos vermelhos
Guias, contas, quintas, quarta-feira.
Não só,
Mas só e reverencio,
Se for possível nesta retina,
Nessa manhã coberta de cinzas.

Que bom que você existe,
África blue.
O temporal está no fim
Chegou ao cais
E a paz a imitou,
Fruta, temporã, 
Cor de sangue.

Vou sossegado 
Para o lado do rio
E é porque eu não confio em teu carinho
Mesmo que venha até a Lapa
No aço do metrô.
Não me enlace 
E acabe.

Convicção mais ou menos
Explosão de uma pressão
Pare um instante único
Que coisa mais sem lógica
Os braços se socam
A friagem da cerro corá separa
Pressão na boca não cabe.

Formosa,
Feita em base de fórmica.
Ajoelho e trovo sua imagem,
Sádica 
E esporádica.
Deito a cabeça no trapiche 
E espero o nada.

Estimo sua falta de pudor
Deixo a vida e morte pra depois
Corpo a prumo, sigo o rumo
Do nunca, do quase, do nunca mais
O impossível é algo sólido,
saturado de beleza, 
E terra do porvindouro, por favor.