sexta-feira, maio 29, 2009

ingenuidade

sinto a fragilidade de ser exagerado,
eu peso, peso e pesa.
retiro e não retribuo.
puxo gal, estouro em cazuza
e me sinto marina.
sê sou, é fragil.
roçar, só se for a língua.
nada de terra e nada de semente.
olhar que aperta quando me vê.
o som da burguesinha explode no rádio do vizinho.
eu tinha voz, era grossa e maçante.
passaria tudo outra vez.
em Norma e Morais
senti a minha ingenuidade aflorar,
a cair e a sorrir.
eu não reclamo do que ela fez,
fiz papel de um garotinho
que busca um amor com mais que mordidas
ser comida, ser todo amor que houver nessa vida.
e eu tô perdido,
em frente a sua casa,
pedindo tua mão,
mão de menina e gosto de carioca.
para roçar em meu peito tão fortes apelos.
sinto migalhas de você por toda parte,
como vaso que pode explodir,
e um dia poder voltar a vir.
estou aqui.

quinta-feira, maio 28, 2009

abusado

Todo mundo usa
O que eu uso.
Todo mundo abusa do abuso
Todo mundo não é o mundo.
O mundo tem ritmo, símbolo e forma.
Reformar é preciso.
Mesmo acoleirado, a luz reaparece
No sentimento de liberdade,
E no conhecimento do seu mundo.

quinta-feira, maio 14, 2009

meu pai

Era junho de 1959, o frio se embutia em cada pedaço do meu corpo, as pernas de um menino de seis anos tremiam e se gesticulavam em desenho de dor. Meu pai, caminhoneiro nervoso, ao lado dirigia seu velho Fenemê 1947 e reclamava mais uma vez de entrar naquela marginal com aquele odor que só São Paulo transferia e transformava para nós do interior. As sombras das nuvens apareciam em meu corpo, eu tentava brincar e redesenhá-las nas minhas pernas finas e frágeis. Em torno do nosso velho caminhão o vento soprava e construía linhas flexíveis aos meus encantos. Eu continuava a desenhar as sombras e agora o ar. Mexia e reconstruía cada forma que aquela cidade me transmitia. O asfalto esburacado construía dentro da cabine um grande assalto de ruídos e imagens e eu pouco me importava com isso. Queria gesticular e me inventar maestro naquele sentido de sons e naquela porção de carros que passavam feito trovoadas. O caminho esboçava meu corpo até o local onde a carga seria entregue. Naquele pequeno período dentro de São Paulo eu edificava dentro de mim diversas histórias e sensações de ser criança e de ser construtor. Em 1959 pouco importava ao meu pai a sensação de ouvir pela primeira vez João Gilberto, ele apenas se atentava ao rádio para saber se Juscelino Kubitschek declararia ou não moratória ao FMI. Desde essa época essa sigla já incomodava e dava muito suco aos jornalistas. Bem, mas isso no fim é o de menos e o caminhão enfim chegava a sua base de entrega. Uma pequena guarita controlava a saída e entrada de veículos e o velho Fenemê parou com a destreza que só ele sabia ter. Aquele barulho do freio de caminhão me impulsionava, sentia dentro da minha própria cabine de trem. Sentia-me dono daquela esperança e sem aquele frio que me comprometia. Documento conferido e aprovado, contudo um detalhe menor se transformou para mim em um monstro gigante, como aquele King Kong que eu havia visto no cinema. Era proibida a entrada de crianças e eu teria que ficar ao lado da guarita esperando meu pai descarregar a carga. E assim foi e fui feito. A noite já assombrava minha mente de criança criativa, e ficar por horas sozinho era uma tensão que eu não queria. O vento cortante da capital me reduzia em algo cada vez menor. Minhas pernas finas e aflitas tremiam e eu não podia chorar, pois os ventos levariam qualquer lágrima para bem longe e eu tinha medo que elas fossem raptadas por qualquer monstro que viesse me perseguir dentro dos meus sonhos. Meu pai não voltava, e o homem da guarita pouco se importava naquela pessoinha cada vez menor e assustada. Uma hora, duas horas, três horas e enfim meu pai voltou. O sorriso em vê-lo foi uma explosão em minha cabeça. Eu saí correndo, e é claro fui abraçá-lo. Hoje não entendo porque ele não brigou, discutiu, feriu aquele homem por não me deixar entrar, mas pouco me importa. Aquele abraço seria para sempre minha casa e o ritual que eu nunca mais iria deixar de querer.

terça-feira, maio 05, 2009

o caso

Três horas da manhã. Ela corria vestida de azul, sorrindo, e dizendo adeus com um lenço. Com a outra mão em porcelana, acaba por deixar a luz cair após um estrondo. Levanta-se, mexe-se e sob a lucidez lívida vê ressaltar em seus braços uma mão clara.
Agacha-se lentamente e busca por toda parte. Está em estado de penumbra. O obstáculo de terno colorido, sapato preto e cheiro de cachaça, entope o que não pode, e ajuda a buscá-la o objeto luminoso. Sem saia, ela abruptamente reforça seu rosto e corrige a boca, sussurra e não separa, não sente-se só e não espalha. Se o medo é de mar, resiste e confessa. Ele dá meia volta, puxa seus braços e abraços. Levanta seu rosto, traz perto a luz, suspeita o ócio e delira em olhos. No chão a luz suplica, sobe aos corpos e vai de encontro. Explode em necessidade qualquer. Nunca recusaram essas emoções. Transportam o dedo e enxergam o rosto. Agora sussurrando em ouvidos, os dois reconstroem a cor. O terno já batido se retrai e fica ainda menor. O rosto pálido a veste sem contornos. Os dois lado a lado resistem a própria beleza. Duas horas depois, a vela continuava acesa, levantara-se o vento, o céu clareava e o acaso não mais existia.