domingo, dezembro 26, 2010

o menino que virou música

Pablo tinha 14 anos, era infantil demais para a idade, e esperto demais para seu tamanho. Oblíquo aos seus atos, ele não se feria, mas sentia o desejo e medo por um mistério: a música.
A música o provocava, passava os braços pelas costas, apertava a cintura e escorregava. Tornava-se por fim ubíqua ao seu corpo, seduzia e o deitava no mar tênue que o despejava.
Ondas, fúria e barulho. Pablo era levado a outro mundo. Sentia apaixonado, mas desconcertado. Sentia cada vez mais que precisava daquela sensação inesquecível que atraía sem ferir. A dor jamais se deixava existir nesse círculo. Era a paz, o sentido de estar sobre o corpo, flutuando e vendo tudo acontecer no mais completo conforto. Deitado com o rosto na paz, Pablo procurava as notas musicais que o traziam para esse lugar. Era o olhar malicioso de seus encontros que o circundavam e provocavam um êxtase intenso. Obsessivamente familiar, a música exercia um fascínio aterrorizador em seus tecidos. Contorcia os olhos e arrepiava cada pedaço de sentido. Era perigoso, quase assustador. A música o fascinava. Pablo fechava os olhos e se imaginava procurando conchinhas no mar, o barulho das ondas e um barco trazendo melodias misteriosas e inefáveis que o atraíam progressivamente. Pablo se entregava. Era dali. Era de dentro da música, a sua única musa. No entanto, o gosto sonoro o conduzia para sua existência: a verdadeira musa não precisava nem existir, muito menos ser executada. A sua morada era fincada dentro da cabeça de Pablo. Era prazerosa, entretanto inevitavelmente perigosa. Assombrosa. A entrega definitiva para aqueles compassos, talvez não deixasse Pablo voltar. Era um caminho rumo à areia movediça de seus desejos e sentimentos. A música o consumia e tomava posse total e instantânea de seu corpo. Valsava pela sua mente e o controlava. Por fim, a sua cabeça nunca mais pararia de cantarolar e os pés marcariam o ritmo daquela melodia implacável para sempre. O caminhar conduziria cada trecho de canção, e Pablo se entregaria totalmente para ser a própria música.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

vento de lá

Fui procurar você em qualquer lugar,
Mas continuei a ter você.
Sozinho no meu quarto,
Pensei em ti e senti
Dentro de nós, o brilho.
Eu olho a lua como uma música.
Ela forma, junto a nós, e dá o tom.
Quero te procurar em algum lugar,
O lençol da cama forma ondas
Que me dão mal estar
De saber que não posso mais acaraciar
Suas mãos e sentir dentro de nós
O caminho e o gosto de paixão.
Felicidade, sorrisos e luzes.
The Lond and Winding Road.
Na rua, o musical inglês invade a janelas do lado de cá.
Entra a lua, entra o som,
E você não mais nua
Novamente não está.
Subo os olhos e procuro.
Onde mais?
O vento vem me acompanhar
Para levar até você.
O perfume e os olhos fechados,
Sempre me trazem até aqui
E agora a hora é de dormir.

sexta-feira, dezembro 03, 2010

entre buracos

Sigo rodando sem lugar para parar,
E aparar cada dengo de desejo.
Para acabar com toda vontade de lamento
Onde cá esteja lá.
Para ela, regresso, bela.
Sinto parte dela.
Sigo em volta ao meus círculos
Prisioneiro de um caminho casto.
Mal falado, mal andado
E mal visto.
Sussurro até Sussuarana,
E me perco entre Ribeiras.
Me entrego,
Mas posso me recolher.
Beiradas formam o foco
E logo me enforco.
Tento parar de respirar,
O fato corrói.
Corroído, constrói.
E logo tento parar de optar.
Olho para o céu e,
O dia é de pouco sol.


terça-feira, novembro 30, 2010

largo ou 60 batidas por minuto

Um dia eu largo de tudo
e não tenho mais lamento
sigo com o punho cerrado
mente e alma fechadas
que vazam entre calçadas.

Um dia eu largo de tudo
meu corpo é duro
sinto muito,
mas não devia
te esquecer

Um dia eu largo de tudo
Não há mais dor imensa,
vou abraçar seu beijo
sei que vou sozinho
tenho muito o que aprender.

O que eu quero saber,
é dentro do calor.
o corpo corre,
eu sinto muito
e vou correr pelo nosso amor

terça-feira, novembro 02, 2010

beijo partido

Eu sonhei com você
E quero responder
Qualquer intenção.
O caminho é o tempo
De poder estar dentro você.
Saber os passos que devo dar.
Saber e estar.
Subitamente um brilho no rosto,
Me arranca de frases tão normais
Que mudam de ritmo,
E muda o meu ritmo
Que não encaixa nesses versos.
O coração tem suas razões,
E bate na modulação do suspiro.
Inspiro.
No ócio de estar sentada a beira do perigo
Posso ritmar você.
Não sei quantas texturas pode ter,
Mas eu desejo e desejo.
Sem passos, antes reprimidos e calados.
O caminhar não tinha mais som,
Mas agora sou
A sua própria música.

domingo, outubro 24, 2010

o puro íntimo

Minha mente sente como um morcego em ano de sol. Brilha em meus olhos como uma imediatez de arregalar sentidos. Como é sentir Nina Simone em Feelings?
Garganta aberta e perspectiva de assustar meu medo. My Mistake, Pholhas, tudo se mistura nessa manhã de sábado que parece ser tarde.Tardiamente para qualquer coisa que queira abrir e florir. A direção vai de encontro ao apelo materno onde sou o que já somos e o resto pode ser tudo. A paz?
Transforma minhas costas em ondas contornadas por vícios de trabalho e sedução. É como um mar fechado de palavras feito para confundir. Cabelo assombra. Sirvo para fundir meus olhos em seu rosto. A porta, a virtude de entrar eu e você. aqui. Me retiro.
Eu não sei como você é, além do que é comigo.

terça-feira, setembro 21, 2010

nascimento

depois que o milton surgiu pra música, a música deveria ter o respeito de parar. o fim da linha chegou. a morte e a vida se encontraram. o negro sem pose de negro, o branco sem pose de branco, o branco e o preto, o adotado, o injustiçado e o mimado. o campo e a cidade. a harmonia complexa e a melodia simples. seria por respeito que ela deveria subir aos ares, a música se elevou em compassos divinos e por aqui parou. voou e o tempo parou. tic tac tic tac. tempo ganha outro espaço e novas origens. os minutos se acabam e se tornam segundos e meio. tempos distantes modernos confusos complexos simples. o negro, ouro, liberdade, chegou.
a música se estimulou e ganhou presença dentro do mundo, dos ventos, dos sons e do silêncio.

segunda-feira, setembro 13, 2010

ana rosa

o vento aqui
está tão bom
e eu me levo quando o vento vem assim,
calmo e silencioso,
vai e volta
como a maré do mar.
Navios negreiros
Ficam tensos todas vezes
Que olhamos e não mais só nos vemos.
o sentido se modifica quando é falado,
sentimento que corre sobre vestidos pouco mascarados.
o domingo venceu,
a luz foi comtemplada
e foi tudo tão bom.
catavento.

sábado, agosto 21, 2010

pontuo

rua triste, luar sudeste.
iemanjá, iansã e xangô reaparecem
são francisco, benedito e miguilim sugerem.

dor dor dor e dor
salvador para ver
crer levitar e sustentar

verbo sujeito malfeito
morte sinônimo substantivo
vida imperativo perfeito

mudança na ordem dos pés
a chuva não sabe o caminho de cá
soluço e sol

divisão latente de um corpo
muito mudo silêncio
descalado,
ressalto.

costume

Sexta-Feira pára a arte e
Um puxar fraco se sente.
Sinto os lábios,
E desejo cada pedaço.
Um frio seco me separa a
Todas sensações que passeiam pelo interior do seu corpo,
Que vão e chegam
Mas que amanhã de manhã,
Expliquem seu caminho acostumado.

quinta-feira, julho 15, 2010

saia

saia roda, roda.
no centro um olhar.
pés descalços,
pó da terra,
batida e sons.
Foi poeira e à poeira volta.
o contorno dentro de si
ensina o prazer.

segunda-feira, maio 17, 2010

motivo

sobre todas as coisas
as mãos se embaraçam
e criam motivos.
sonhos em meio a cinza e caos.
fico calmo, calmo, calmo.

me basto em fazer qualquer canção.
eu quero amor com timbre de hammond.
é pele macia, encontro, rosto no ombro e paz.
volto-me ao sono.
e aqui fico em mais um dia.

suco de morango

As árvores deitavam. A cada instante eu encontrava troncos contorcidos pelo chão. Vento vadio. Ventou. Eram trechos de madeira cansados de viver. Não tinham outra saída a não ser pelo chão. Só essa melodia é que pode trazer consigo, orgulhosamente, a sua própria morte. Todo encontro imprevisto cala com a pujança do sentimento. Estúpida, imóvel e deserta, a consciência se esconde entre as paredes. Vaia de bêbado não vale e elogio também. Cada um no seu tempo.

Vejo-a, com surpresa, levar a seiva até a boca. Fico um momento apenas a olhar. Muitos tons de brancos e, de longe, alguns círculos traçados em vermelho. Sinto-me um pouco pálido. Meus olhos aquecem e minha testa pega fogo. É o fogo, o vermelho, é a sorte. Pinto-me inteiro com suor de fruta madura. Embaraço. Laço. Enrosco. Somos refeitos de seiva bruta.

sábado, abril 10, 2010

partida de futebol

Saio correndo e pego carona até em casa.
Estranhas imagens representam uma imensidão de coisas.
Olho meu rosto no reflexo do vidro.
A chuva lá fora me recorta em centenas de espaços.
Sinto cada pingo desfazendo meu rosto em buracos.
Desço alguns quarteirões, corro e corro.
Subo andares, um por um, meio desequilibrado.
Chego ao apartamento e corro até o computador.
Ela está desligada, perco o tesão.
Toda corrida tem motivo,
E ele não existiu.
Devia estar dormindo, e melhor, descansando.
Tudo bem, o motivo me abana.
São mais de duas horas da manhã.
Amanhã tenho outro motivo:
Acordar cedo e esperar todas as cores.
Os objetos no meu quarto se calam. É hora de dormir,
E mais um livro se fecha.

sábado, março 13, 2010

chão da praça

A janela e seu eterno barulho.
Sinto sinal e disparadas.
Vou ao além.
Vivo cantando
E buscando conversas no chão.
Prefiro a água do mar.
Janela estufada.
Casa, música, Jobim.
Você falta.
Eu olho, vejo o amor que aí dorme.
Olho para o chão ou para o alto.
Teus cabelos, ah, teus cabelos.
Trabalho por toda parte.
Cheiro que consome o desejo.
Vontade de ser e sentir.
Problema maior de não amor.
tem que dançar a dança?
Eu não sei por que ninguém te disse como ser.
Não nego nosso oceano.
Aconchego e porque não
Meu vício de ser a primeira pessoa.
Eu converso e respiro.
Sinto a leveza de ser você;
Meu único e duradouro amor por aqui.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

olhos negros

Eu não consigo fugir.
Em minha casa
Vivo Sonhando.
Tom Jobim me agarra você,
E isso não é para ser desabafo.
Dindi agora é sua também.
As águas desse rio
Onde vão, eu não sei.
Voltei a pé
Só para cantar cem vezes Dindi.
E é pra cantar bem baixinho,
Para nós.
Escrevi cartas em minha parede,
Estou olhando através de você.
A despedida fria é para não pensar muito
Que você já vai.
Não posso te olhar.
A cara de bico
é o cheiro do impossível
Gosto do jeito que você me chama.
E essa voz me aconchega e me enxerga.
É tão bom ser morais, morais, morais para você.
Bem,anda, vem jantar,
vem comer, vem beber, farrear.
Não quero gosto de despedida.
Ah, olhos negros, cruéis e tentadores.