domingo, março 27, 2011

o poder do erro

Em seu quarto, Gabriela colecionava pudores e amores colocados em móveis tipicamente de uma pessoa estridente.
Um sofá azul com um buraco no meio era pano de fundo do quarto desmantelado pelos seus próprios ócios. Ele era objeto de histórias e companheiro de noites mal dormidas.
Do lado esquerdo do quarto, um guarda-roupas com adesivos oriundos de um caso mal acabado com um ex-namorado.
Para completar a orquestração do dormitório, uma janela a direita tremia, balançava e lembrava um Miles Davis com surdina e desafinado. Ela tolerava.
Gabriela era de tolerar, era jovem demais para sua inteligência e imatura demais para sua existência.
No centro, um divã sofria com seu tempo de castigo, abraçava a pele de Gabriela e entrelaçava desejos e receios. Era seu único lar.
Com nome de arcanjo, ela se sentia rainha de si e das pessoas. Sabia a tristeza e a felicidade de ser o que era.
Hoje, nesta manhã, ela acordou e foi lavar o rosto no banheiro que fica ao fundo da pensão. Foi batucando os passos em laços de bolero até chegar calmamente ao local. Era uma rotina que escapava dos pensamentos da moça.
Delicadamente ela abria a torneira e não encontrava mais água.
Gabriela se olhava no espelho e via um imagem opaca e pálida. Sua boca parecia não existir. Era tão clara que coincidia com sua pele perdida na falta de tesão.
Ímpeto que moveu Gabriela por anos.
Suas mãos, agora trêmulas, apesar de seus 24 anos, ressentia o medo de se tocar e cruzar esperanças.
Tentava piedosamente colocar a mão no rosto e via no espelho ele se desmanchar.
Gabriela desaparecia no movimento do calor de suas mãos.
Suas mentiras, concessões e medos levavam para correr sua própria sombra.
Perdida dentro do sentido, Gabriela se adiantava e apressava a dor de desaparecer literalmente naquele cubículo recheado de azulejos coloniais.
No chão, todos labirintos apareciam em diferentes cores, juntavam em cada retalho de piso. Pisoteava o ego inflado que acabará naquele momento. Gabriela tentava ajoelhar e buscar o que fez com sua vida, o que decidiu e o que negou para si.
Em desespero, ela buscava o que fugiu e o que mentiu - Gritava dentro do seu peito a decisão final de se deixar escapar.

sexta-feira, março 25, 2011

no zum zum

Um dia você para de aprender e para de saber o quanto não precisa ser. Saber, pensar e tentar. O corpo não precisa pesar. A temperatura do pensamento vai de encontro a todos os intereresses. Contra ataque - Situação penosa e perigosa. Situo o medo fincado como um ponto no globo. É daqui ou dali? O cerco fechou e os sentimentos estão alavancados em somas de durezas. Trêmulo até onde os ossos escapam do corpo, a voz tenta lampejar gritos de socorro em um lugar perdido. Agora, pedaços da vida semeiam seus últimos suspiros de desejos. Agora não é hora. A hora da parada já foi. A partida parte-me. A mente embrulha em seu fim inderteminado. A leveza do corpo clareia, e o céu definitivamente toma conta do mundo.

sexta-feira, março 11, 2011

para te amar

eu sou o que persiste
em grandes desamores na vida.
sem alegria para sorrir
sem um barco para partir,
sou semeador de sonhos, e portanto, compactuo com nossa distância.
céu, o campo e o mar,
transbordo na riqueza itinerante de ser o que não posso ser.
o soluço acabou e a noite parece não ter fim,
sou um calabouço fundo e frio.
um pedaço de destino sem amarras.
sou um peito corroído por não deter o que há de se deter dentro de mim,
o fogo e a fúria de querer transformar,
o que é há para amar.
sou o corpo cansado e detonado.
respiro pela falta de magnitude dos meus atos,
respiro verdadeiramente só para te amar.