terça-feira, novembro 07, 2017

cia de pesca boa morte

"Eu venho lá das Pedreiras, corto mato, faço caso, e me deito na areia..." Toco chegava ao trabalho sempre com uma música pronta na cabeça, criada ou escorchada. "Toco" era apelido de Ezequiel Benedito da Silva, homem liso que aprendeu a agilidade "nas Pedreira" como gostava de proclamar o local onde vivia aparentemente entre um telhado e outro.

Toco era cortador de cabeça de peixes. O ligeiro rapaz era um jovem profissional na "Cia de Pesca Boa Morte" do neopréfordista Expedito Aragão. Viciado na cultura automobilística, Aragão transformou sua peixaria em uma legítima linha de montagem onde os mais inexperientes acabavam sendo direcionados para o setor dos "corta cabeça". Ele estava por lá há 2 anos.

A "Cia de Pesca Boa Morte" ficava à beira do abismo com as portas da entrada voltadas para o futuro, pois ali ficava a eterna reconstrução do porto da cidade.

Em uma dessas segunda-feiras, sem grandes aventuras, o porventuro e porvindouro nascer do sol desejava um pouco de emoção em sua vida. Como um balançar impossível das montanhas, surgia em seu campo visual, vindo da rua Direita, dois enormes seios.  De antemão, um susto. Depois, quase a própria extinção. Era Clara, que logo roubou o brilho da feição do pobre rapaz. Ela havia reaparecido, após pequenos pares de anos morando em algum país ou do mundo, que pouco o jovem homem acessava. Clara possivelmente tinha 10 anos a mais que Toco e havia casada com um sonolento homem de qualquer lugar.

"Tomo um banho inteiro, com as águas de cheiro", suspirou Toco ao ver o vulto Clara andando pelo centro de rua, vestida com pouca roupa e uma bolsa pequena, com fivela de ouro, marca de sua prosperidade. Ela parou e não sorriu. Também não estava incomodada. Clara era um misto de dissimulada, vagarosa, insegura e sensual.

A janela da peixaria servia para aquela imagem como uma moldura. Tinha forma retangular com pregos surrados em suas extremidades, pimenta da costa e favas de begerecum e aridan, penduradas no centro, como um adorno que transportava aquele corpo claro para dentro de Toco. "Piracanjuba, peixe-mulher", vociferou.

Clara se aproximou até a janela com seu balançar das montanhas, lentamente, enquanto exitava o contato. Eles nunca haviam se falando. A moçoila fazia parte do pensamento de Toco desde quando ele conseguia escapar do porto, das Pedreiras, do campo, do corta-mato.

"Eu sou uma preta velha aqui sentada ao sol". A noite, Toco fazia ponto na rua de cima da peixaria - o Beco dos Milagres. Era um mistura de drag com animador de festa e michê. Sentia prazer. As esperanças de se afundar naquele colo apareceram junto com a necessidade do trabalho noturno. "Não deixam-me ver a moça, pura canção." Combinou com Clara de aparecer por lá entre dez é dez e meia.

O Beco dos Milagres constituía-se no local todo mundo podia se sentir mulher. Toco ficava mais calmo com isso e gostava pisar por aquelas sarjetas tortuosas. Por lá, nem tudo era felicidade. Era um misto de paixões, horrores e medo.

Na mansidão noturna, em meio a gritos estridentes de gatos e gatas no cio, ela apareceu e sorriu. Beijaram-se. Ele trajando um vestido de cetim vermelho, com detalhes em renda e lantejoulas douradas com babado. Ela, de sobretudo preto, apenas de sobretudo. Entre amassos e sussurros, deu para se ouvir mil anos de história, centenas de palavras guardadas Era cruel.

"Foi Benedito quem me trouxe aqui". Ezequiel nunca se esqueceu do "Benedito" que trazia em seu nome. Religioso, de fé amarrada entrelaçada nos dedos embaraçados, saiu daquela noite decepcionado. Quantos milhares de anos seriam necessários para se ter um novo amor? Tudo era silêncio nas pedreiras.

quinta-feira, maio 11, 2017

espaço

Vento na têmpora. Treme pelos lados de lá. O homem fugindo da batalha caminha desdenhando do céu. Teve um descontentamento ali com os astros, com o afeto. Romper sempre é um processo difícil. Caminhou entre bombas – mentais, espirituais e reais. Soube que seu país era atacado por uma questão que não tinha a ver com sua vida. Era uma briga entre o poder e o poder. A comoção internacional existia só para vender tempo. Seus olhos estavam ali sobressaltados, como vieiras prontas para um prato caríssimo na Place Louis-Armand. Soube recentemente das últimas eleições naquele país. Não entendeu nada. As pessoas, pelo que parecem, já são comprometidas com o que vai acontecer. Laracha. Ele continua a não entender as coisas e visava os astros que antes não se entendia. Ao caminhar, deitou-se sobre aquela areia grossa, seca, mas com jeito de canseira. O corpo, ainda quente pelos galopes e chicotes, adesivavam cada partículas daquele chão imundo pela tristeza. Aspirava o poder ao mesmo tempo que imaginava o pleno viver. As costas ardentes de labutas auspiciosas estavam a esfriar o grosso suspiro. Da visão de seu pequeno rosto, o homem amedrontado escutava o pulsar do céu. Conseguia ver o entrelaçar das estrelas, dentro daquela enorme e impactante escuridão. Via o futuro, apesar do desaparecimento de cada ente. Enxergava a vida, apesar da possível morte. Dentro daquele estreito campo de visão, ele vislumbrava a temperatura dos tempos, os sons da explosão, os gritos dos povos. Naquele curto espaço de tempo, ele conseguia sentir as tempestades futuras e os erros passados. Com que tempo passamos? Como respondemos essas questões? No interior dos seus ossos acontecia um misto de desilusão e otimismo. Cabia um tiro em seu vão?
Com o peito encrostado no céu, com as costas inundadas na terra, o homem entendia diante de si o planeta. Sorriu e chorou. Sua vida nunca chegará ao fim, queira morrer ou viver.  O infinito sempre será o exílio acompanhado de licores, conhaques, tabacos, sujeira, correria, explosão e sonhos.