quinta-feira, setembro 04, 2014

linhaça, mamão e sem açúcar

2014. Um homem caminha distraidamente pela rua que parecia inútil a sua memória. Seu olhar, agora, esfumaçado pelo tempo, fita sem perceber a entrada de um casebre já em estado de deterioração. O calor sufocante ajuda a trazer aquela lembrança. O senhor não fica indiferente, não se apressa, paralisa em frente a residência. Fica literalmente estupefato. Está no encontro da rua Duque de Caxias com Sete de Setembro, próximo a um córrego, hoje em dia, vazio de peixes.
A visão entre as grades carcomidas pela ferrugem, transferem o homem para o seu passado, causando rápido nervosismo. Suas mãos ficam geladas, a boca pronuncia palavras inaudíveis, o ritmo do coração vagaroso se torna subitamente acelerado e avassalador.
As pessoas observam aquele estranho personagem que cruza o passeio de um lado para o outro, balbuciando coisas e vasculhando com os olhos aquela casa que aparentemente esqueceu.
Mas o homem ignora tudo e todos. Está viciado somente naquele alpendre, que contém um daqueles altares sem a santa que um dia lá viveu. O espaço lembra tempos de amores, fúria, brigas, beijos e sexo. O piso ainda parece vivo, com ladrilho de cores que passeiam entre o marrom, vermelho e amarelo claro. Redemoinhos de recordações desencontradas dissolve sua visão da realidade, e ele viaja, sem aborto. É o passado que agora revive. “Adeus, Amor” na voz de Carlos Galhardo, “Quando eu me Chamar Saudade” com Nora Ney e Jorge Goulart entoam em seu cérebro. Lembranças de uma existência inteira dedicada a um amor. Lá ele experimentou o maior dos calores, suou e festejou uma vida repleta de liberdades sexuais: ativa, vermelha, com gosto de sumo. A parede de tijolinho à vista contém a forma dos corpos que ali se entrelaçaram tantas vezes, gasto, mas apaixonado. A mureta, próxima da janela do quarto lateral, parecia ser o local onde almoçava todos dias quando fugia do trabalho na sapataria. Naquela época, fez o básico de uma vida urbana pacata. Viver na cidade nem sempre foi estar no desatino.
Mas o tempo da memória parece acabar como o final das páginas de um livro, e a realidade volta a assombrar. O homem enxerga entre aquele portão como está atualmente; vazio, cheio de sombras e escassez de cor.
Regressa a surdez gradual. O silêncio. As alucinações e pesadelos presentes. Incrédulo por defrontar-se com o maior dos seus dias, o homem volta a visão para o céu. Sente o incômodo que é se defrontar com o sol, apesar dos olhos arderem muito menos do que antes. A ausência de sentidos dilacera aquele corpo já cansado pelo tempo. Afinal, até sentir muita dor faz falta. É hora de voltar as vistas para do outro lado da rua e continuar o caminho até o mercado central. Vitamina com linhaça, mamão e sem açúcar o espera.

sexta-feira, junho 20, 2014

mangue

A vida vai muito além das possibilidades da canção.
O som, o som.
Ele não terá fim.
Os ciclos não prevêem a oportunidade,
pois se ocupam das coisas que são.
Ao escurecer, a terra toma forma de cor,
O gosto é de mangue.
A vaidade faz questão de aparecer.
Resiste a tudo que é feio, problemático.
O orgulho é o que persiste e dá o tom da solidão.
Abandono é mato em terras de lamaçal.
O desprezo pela fúria é consenso,
Mas, nessa imensidão, não há dor maior do que existir.
O ser, uma vertigem de tempo, vai à procura de sua ancestralidade.
A vida, banhada de sangue e barro, é a busca eterna pelos portais: reencarne e desencarne.
Processo irreversível do tempo.
Não há castigo maior do que sobreviver em terras não-firmes.
A mãe, nossa terra, nos abraça com o seu ventre e nos aconselha para ir longe.
A nossa herança nômade é o que sufoca e dá esperança.
É guia transformador, é guia roxa, lilás, sem ouro e sem prata.
O universo existe, as relações existem, a memória persiste.
O esquecimento é como um animal que se arrasta no chão - demorado e relutante.
Contudo, a raiz nos segura em solo úmido.
Queremos ser tudo, queremos guerra.
Limpamos nosso cais, tiramos o limo
Para não restar qualquer dúvida sobre o nosso recomeço.

sábado, abril 12, 2014

não

Encontro
Encontro
Encontro
Encontro
Encontro
Encontro
Encontro
A palavra é o inferno.

quarta-feira, março 19, 2014

café e flores

Estou cansado de me perder no tempo. Sinto o mau gosto de chafé na boca. O cigarro e a luz acesa. Porque as coisas não se dispõem em minha volta como um amontoado de areia, sem me dar o trabalho de ajeitá-las em ordem ou descaso? Sei o que fazer, mas não faço. Ruptura é um negócio danado. Não sei explicar bem, mas no momento em que eu agia, o que estava a fazer teria consequências fatais. A cinza do cigarro deixou vestígios e as marcas naquele corpo são minhas. Mas é perfeitamente inútil ser pedante. Eu pensei nisso. Mas tudo ficou pelo caminho, como uma trilha perfeita para encontrar o assassino.  Estou olhando com desconfiança para esse quarto dilacerado. Quanta fúria poderia compor meu corpo. A julgar pelo que eu digo, teria pensando antes: isso muito me espanta. Não posso convencê-los. Quero só irritá-los com frases curtas e monótonas. Poderia cingir estes versos no volume mais alto. O que nos resta fazer agora? Um corpo no chão, sangue, uma trilha enorme de tabaco e outras quinquilharias. Meus dedos estão estalados na vidraça. Não vou mais agir. Conhecemos algumas razões para viver? Não estou, como ela, desesperado, porque nunca tinha esperado grande coisa de mim. Conservo a cabeça baixa. Calo-me.

terça-feira, fevereiro 18, 2014

o homem bom

Cerrava os olhos com força, porque sabia que no jogo da vida não entravam sentimentos, amor, essas coisas afáveis. O processo competitivo, neste período, parecia carecer de esboços. A vida era para ser lógica, objetiva e cansativa. O outro poderia ser no máximo o próximo inimigo. O conteúdo de sua vida, porém, era monótono, sem vida, sujeiras e respingos. O cotidiano implicava trabalhar os vários níveis de retórica, desarmonias e falta de ritmo, simultaneamente, percebia que não era capaz de sustentar um fio de continuidade e precisava trabalhar mais para vencer mais. Ligado em suas telas, ele regurgitava sua ânsia de ser dono de si, das ideias e de uma nação. Batia com a mão dura em seu teclado. Crescia em torno daquela mesa. Esbravejava e com uma solidão diária criava uma repulsa sobre todos os seres humanos. O olho arregalava, a garganta explodia, veias saltavam e desenhavam a forma de ódio que subtraía seu corpo. Voava para desacelerar e cair imeditamente em sua cadeira. Todos deviam correr do inimigo, mas ele não conseguia assustar, a não ser a si mesmo. O seu pessimismo perdia para o pessimismo. Sua união estável não confortava seu ego. Seu ego não confortava a si. Encontrava-se em bens, poucos bens, mas vontade de sobra para ter muitos bens. Sonhava pelo inferno da acumulação. Era o ódio sobre a terra e sobre os outros, ele precisava vencer, vencer. O tempo apertava o cinto e deflagrava seu estômago. O tempo passou, o tempo rugiu e o que ele conseguiu pegar no chão não vai pagar sua dívida eterna com a humanidade. O silêncio corrompe o medo, o silêncio desfaz o cão.