terça-feira, fevereiro 18, 2014

o homem bom

Cerrava os olhos com força, porque sabia que no jogo da vida não entravam sentimentos, amor, essas coisas afáveis. O processo competitivo, neste período, parecia carecer de esboços. A vida era para ser lógica, objetiva e cansativa. O outro poderia ser no máximo o próximo inimigo. O conteúdo de sua vida, porém, era monótono, sem vida, sujeiras e respingos. O cotidiano implicava trabalhar os vários níveis de retórica, desarmonias e falta de ritmo, simultaneamente, percebia que não era capaz de sustentar um fio de continuidade e precisava trabalhar mais para vencer mais. Ligado em suas telas, ele regurgitava sua ânsia de ser dono de si, das ideias e de uma nação. Batia com a mão dura em seu teclado. Crescia em torno daquela mesa. Esbravejava e com uma solidão diária criava uma repulsa sobre todos os seres humanos. O olho arregalava, a garganta explodia, veias saltavam e desenhavam a forma de ódio que subtraía seu corpo. Voava para desacelerar e cair imeditamente em sua cadeira. Todos deviam correr do inimigo, mas ele não conseguia assustar, a não ser a si mesmo. O seu pessimismo perdia para o pessimismo. Sua união estável não confortava seu ego. Seu ego não confortava a si. Encontrava-se em bens, poucos bens, mas vontade de sobra para ter muitos bens. Sonhava pelo inferno da acumulação. Era o ódio sobre a terra e sobre os outros, ele precisava vencer, vencer. O tempo apertava o cinto e deflagrava seu estômago. O tempo passou, o tempo rugiu e o que ele conseguiu pegar no chão não vai pagar sua dívida eterna com a humanidade. O silêncio corrompe o medo, o silêncio desfaz o cão.