quarta-feira, outubro 24, 2012

em são paulo nada vence uma carona

É fim do trabalho e começo do dia. Ele desabotoa um botão da camisa, agacha e refaz de maneira grotesca o laço nos cadarços de seu Rainha branco. Pega seu celular mequetrefe e engata seu fone de segunda. Na lista: depois de Black Sabbath vem Black Uhuru. Nada disso, pula para a letra C. Carpenters - Gold - Greatest Hits. Massa. Desce as escadas guiado pelo corrimão. Bate com a aliança de noivado no ferro antigo tentando suingar "Close To You" da banda californiana. Lástima. Desce em pulos para comemorar mais um dia. Menos um botão agora na camisa. Mais vida. Calçada. Passo a passo. Rápido. Tem 3 conduções pela frente. Não consegue dançar com Carpenters. Hora de trocar. Não tocar. Ela aparece. Susto. Ela. Sedutora. Reaparece. Ela que não era vista desde a festa de formatura em Porto Seguro. Ele desejou reencontrá-la por anos. Nunca pararam de trocar mensagens sobre amor, afeto e coleção de papel de carta. Era um carinho enorme. Que bom. Enfim aquele beijo roubado de volta. Aproximam-se. Esguiam-se.... e uma buzina bate ao fundo. É uma colega do trabalho em um pomposo táxi oferecendo carona. Ele sorri e diz para o amor: 'Nos vemos outro dia. Um beijo'. Corre feliz para sua carona noturna. Abre o restante da camisa e sorri feliz por saber que chegará em 40 minutos em seu lar.

segunda-feira, outubro 22, 2012

triste é não ver futuro

Outubro. Campos gerais. Chapadões. Frio seco. Rio fresco. Arraias negras com pintas brancas giram como discos. Estio. Ar transparente, céu azul. É primavera e pássaros namoram. Campos gerais. Estirões de mata à beira rios. Horizonte. Mata alta por onde passa um córrego de água boa e fria. Os pássaros gritam. Silêncio na planície verde clara. Ternura. De repente, o Uirapuru aparece, um grito, vem o chamando para a fêmea. Silêncio. E calmamente, a fêmea se aproxima. É a resposta. Eles conversam na sombra das árvores. O olhar parece vir do fundo de outros tempos. Reconhecem. Aproximam-se. Aqueles dois pontos de som se abraçam. O movimento das nuvens desconstrói a sombra comprometida. O vento faz ondas como penteado nas folhas verdes douradas pelo sol. A disponibilidade harmônica dos espaços azuis agora é enorme. Lá vai um pássaro Príncipe, e pousa no galho. De ventre cor de sangue ele enche de piados o ambiente. O Uirapuru, apesar do canto que domina toda a floresta, não tem a força de Príncipe. Tangará, segundo nome de Uirapuru, tem bico forte, pés exageradamente grandes e, às vezes, nos lados da cabeça, um desenho branco. É forte, mas parece opaco perto da beleza de Príncipe. Mas, debaixo das asas, ele leva uma caixa. Dentro da caixa, uma flauta. Dentro da flauta mora o prazer. Um dia voltará ao criador para devolver seu dom.   Esquecido entre o chão forrado de folhas, ele se esquiva do poder da realeza, e decola junto com sua fêmea em uníssono canto. As asas atropelam o ar, cortam o vento e os dois saboreiam a exuberância de serem os verdadeiros donos da floresta.

rio

o único gosto
que agora
sinto
é o gosto de suas
lágrimas

terça-feira, outubro 09, 2012

lapa

No teu escuro
Bato feito pedra

Te amasso na parede
Muro que quebra

Onde me escorro
E suo.

Somos feitos de vielas

(Parceria com Henrique Lederman)

domingo, outubro 07, 2012

são sebastião

Entre rios,
entre um retiro saudoso
ou um ribeirão preto,
a água caminha calmamente para o mar - quente e calada