terça-feira, junho 23, 2009

calada

mingus: e se for para ser leve?
que seja inteira
entrando devagar
sem cansar
só sambar
e ficar dentro por toda hora.
se for?

júlia: eu sou neguinha.

mingus: forçou, vingou, aprendeu, bateu,
e soou em mim.
suei,
encolhi,
subi em mim.

júlia: este samba de mãos, sei não,
que fica cada vez mais pesado e incansável.
uma saliva vem molhar meu desenho
me faz sentir um calor intensamente excitante

mingus: em processo me transtorno
me formo e transformo em mordidas.
chupo cada dor, e ranco de ti o supra
o sumo, o gosto,
e como.

júlia: uma viagem louca, minhas mãos percorrem o contorno do rosto
e encontra uma fuga entre cabelos,
que nascem de uma nuca fria, mas aconchegante.
são peles trêmulas a se encontrarem pouco a pouco.

mingus: me come.

júlia: sensação de cruzar as pernas quando se sente o calor presente ficar por um tempo,
mesmo quando já está descruzada,
é como a contração se transformasse em umidez.

mingus: embrenho-me em tantas pernas.

júlia: este samba me provoca sons quase surdos, mas vibrantes.
sou de quem me possui.
Você me provoca respirações nervosas.
Braços me agarram como temessem que eu partisse,
dedos com unhas que deixam marcas impiedosas
sob uma pele suada,
nua e
trançada.

mingus: na mordida crua
mato como se marca.
aperto sua cor
tapeio qualquer cheiro
sinto dentro de ti essa onda
e pulo
passo a vez
e dessa vez que venha nua.

júlia: pernas que aprisionam
e não são mais dedos que tocam,
mas lábios que se maquiam de beijos.
cada membro espetacular.
beijos e pensamentos a descansar.
permita que suspiros invandam os ouvidos
e faça de minha cabeça uma caixa acústica.

mingus: cansamos!

júlia: derramamos esse líquido
com cheiro que provoca meu instinto.
eu lambo e te engulo.

mingus: essa canção por mim não tem fim,
corpo delicado,
e agora já foi
sinta-se em mim, sente?
...
matei um samba?

terça-feira, junho 16, 2009

fim boom

O fim já foi.
Confundiu.
O sim.
O fim não tem cheiro,
Retas e nem joelhos.
Dia da semana ou nos seus finais
Tanto faz o fim.
Com ele se começa
E se acaba.
Separa-se e maltrata.
Na boa união
O fim será tempero
Mensageiro, parteiro,
E parte-me.
Posta em si
E sapeca outro não.
Sim,
O fim é assim
Leva para si
A responsabilidade de decidir.
Se sou fim, pouco sei.
Resto pouco no lá.
Não gosto de opinar,
Contudo o fim é bom
Pois já nasce
Em poucas palavras.

domingo, junho 07, 2009

viagem ao domingo

Eu sinto um pouco de tontura hoje.
Minha mão arranha esse pedaço de barco velho
Esse escaler que só tem ferrugem.
Sinto os calos da oxidação do ferro
Que são como montanhas
Que vão redesenhando minha mão.
Noto cada sinal que me transmite.
Esse barco sem vela
Não navega em paz
Tão pouco importa ventar
se a vela não se acende mais.
Não acena
Não sai de cena
Não toca em mim
O barco, o astronauta,
Esse céu azul
A vertigem compromete, mas não me mete
E o barco vai, vai
Mistura em minha órbita o céu e mar
A tontura recai
Entra no meu peito
Surra meu medo
E explode em minha boca
Como bolinhas de sabão
Que arrepiam meu sentido
Que em linha se contrai,
Corrompe,
E falha.

segunda-feira, junho 01, 2009

a resto

Quem gosta de resto? Trocado, variado e arranhado.
Quem fica com o resto? Certeiro e ranho cansado.
O resto tem porque ser trocado.
Ou troca algo, ou vira quem.
O resto vira troco mal amado e resto da pá virada.
Ser troco é assim que o resto vem.
Eu não quero resto de ninguém.
Mesmo que eu já soubesse que seria descartado.
Nenhum troco torceu para ser trocado,
E nenhum resto torceu para ser deixado.
Se for resto, inteiro-me.
Mesmo que meus olhos se confundam com tantas luzes, apartamentos e edifícios. É difícil não se perder nessa vertigem e imaginar a seco o que está por vir.
Dentro do ônibus vejo o cobrador, com gestos gentis, ser o próximo a morrer com um tiro na cabeça. É mais um assalto, é minha cabeça revirada, o sangue escorre na catraca e fica seco.
O troco do alguém voa pelo chão, a moeda corre, desenha o diabo em mim, passa por todos e morre. É resto. É a morte dentro de mim.
Ser trocado pode se tornar divertido, eu crio o inferno e gesticulo sem fim. Mexo a cabeça e esporro a saudade. O nojo me contagia mesmo sem querer gostar de resto.
O ônibus para, e dou um salto para o outro lado da rua, minha boa estatura me ajuda a pular por metros, caio com os 2 pés na cabeça de alguém. Se ferir, reviro, mastigo e sinto. O vento corta meu rosto, mas não me estilhaço, sigo inteiro e sem contato com nenhum olhar.
Os cachorros não latem mais para mim enquanto passo em silêncio e apago minha sombra.
O menino do skate cospe na terra, e passa o pé por cima em clima de educação. Entendo o ranho arrastado, pisado e bem criado. Se for resto, que fique no pé de alguém. O lixo. Não esquento mais resto para o lixo comer.
Eu continuo inteiro, passo pelo sinal e corro até o começo da estrada. A hora de voltar pra casa é agora. Volto correndo, mesmo que um dia eu possa explodir em mim.