segunda-feira, setembro 07, 2009

perereca

A porta estava ali feita para entrar. Meu corpo doía por toda parte. Nos pés, sapatos lustrados por uma flanela laranja, daquelas de lustrar sapato mesmo. Continuando, pé encorajado e como diz o ditado, um pé de cada vez para qualquer caminhada. Porta desvinculada e seio arrepiado pelos ventos oriundos de uma tensa escuridão que parecia não ter fim. Não conseguia mais enxergar meus sapatos, não pelo fato de eu estar usando apenas uma das minhas lentes ¾, mas pela escuridão que chegava a ser úmida.
Por onde olhava via sons caminhando de mãos dadas com qualquer um. É a música na sua caminhada perversa. Meus olhos se acostumaram com o preto. No outro lado do salão, homens se espreitam no velho balcão com aquela pátina envelhecida da pior qualidade.
No centro da sala, pererecas saltitavam em formato bípede. Pulavam, socorriam, escorregavam e se seguravam com suas ventosas apropriadas e voluntariosas. Invasão anfíbia. Apesar de causarem certo nojo e pavor, pererecas são indicadores de um meio ambiente saudável. No contraponto, homens conversavam sobre a reputação das “verdinhas dançantes”, ato típico da sociedade machista. Cotovelos bem encaixados no balcão do bar procuravam conceitos espalhados no centro da pista. Uma perereca, capitã da equipe feminista de basquetebol trazia seu baseado, ia de encontro a seu macho e tentava puxar uma conversa:
_ Oi gato
_ Ah gata, nem vem, to ainda pensando naquilo, ta foda.
_ O quê?
_ Vou matar aquele cara que te comeu. Eu mato.

E o macho tremia seu queixo com mais um desejo assassino de comer a outra coxinha da verdinha, ou quem sabe a sobre coxa de anfíbia feminista do time de basquete.
Em fila indiana, primas da perereca capitã rumavam ao balcão e levavam suntuosos tapinhas no bumbum, e davam outros tapas no baseado. Tapa?
Logo procuravam um banheiro para se olharem. Embrenhadas em sustento meio sujo, suavam super na moda.
O banheiro em explosão se entupia com a vaidade anura. Meu corpo ia sendo esfregado sobre o chão, levado e esgotado na sarjeta.
E agora o que falta?
A feminista assassina da sua obra? O Sartre roçando sua língua na minha? O machista acotovelando seus desejos?
Que nada.
Fugi, e agora estou aqui.
Suado e sem muito queixo, corro por todo centro, tento escapar pela Barra Funda e me encorajo no caminho pré-Sé. Jesuítas me salvam?Santa Ceia? Santo Daime concretista.
No encontro da Rua Florêncio de Abreu com a Ladeira Constituição, prego meus olhos nos caranguejos que nascem nas calçadas sujas de ferramentas. Estou sendo cercado, é agora neste momento a hora do socorro.
Caranguejos pernambucanos destilam seu manguebeat pelo centro de São Paulo. É o morto, é a ruga, é meu marte.
Sapateio e desconverso. Os crustáceos me perseguem e invadem todas as ruas que podem acontecer e morrer. A 25 de Março vira um mar de caranguejos suculentos nutridos de pererecas oriundas de uma Amazônia pré-colônia. É a beleza, é a fuga, é a fuga, é a fuga.

8 comentários:

Carolina disse...

eu leio sim....

Katrina disse...

A cada dia que passa aqui mais parece um centro de realismo fantástico, haha

Murilo disse...

Só o Santo Daime explica...

Marcelo Luiz disse...

É a realidade expressa de maneira sutil...

Tania Campos disse...

Gente! Vim visitar e adorei.

Lucas disse...

A-do-ro carangueijo.

Camila Hungria disse...

gostei mucho!!!

Dani disse...

ruivo, ponto.