Garrincha, um anjo das pernas tortas,
que driblou até a própria data de nascimento.
Um homem que comemora duas vezes o mesmo dia,
porque a vida, com ele, não sabia por onde começar.
Garrincha driblou as almas — todas elas —
no velho Maracanã, templo e testemunha.
Entrou dentro do véu de noiva,
no retângulo sagrado, no ventre do gol.
Driblou a vida como quem brinca com o vento,
riu da dor, riu do destino,
cantou com seus passarinhos,
viveu uma vida diferente dessa vida.
Driblou a morte.
E venceu.
Garrincha eterno — como Pelé.
Juntos, quarenta vezes pela seleção,
trinta e seis vitórias, quatro empates,
cinquenta e cinco gols — e um milagre em cada toque.
Garrincha, o homem de duas Copas:
cinquenta e oito e sessenta e dois.
Protagonista — ou pelo menos um dos —
e o dono absoluto da Copa de sessenta e dois.
Apenas isso: duas Copas do Mundo.
Isso basta para calar qualquer dúvida,
qualquer pensamento pequeno
de que Garrincha era apenas um driblador.
Não. Garrincha driblava, fazia gol, decidia.
Foi decisivo — em duas Copas do Mundo.
Duas.
Não haverá nada como Pelé e Garrincha.
Nada.
Não ouse comparar o futebol de hoje com o de antes.
Não ouse comparar deuses com humanos.
Não ouse.
Porque há coisas que o tempo não alcança,
e uma delas é o riso de um anjo
com as pernas tortas
e o dom de fazer o mundo acreditar no impossível.

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