segunda-feira, março 02, 2015

terra

Um cheiro amargo de café passeia por esse quartinho escuro. No canto esquerdo deste inóspito lugar, um armário, presente dos meus vizinhos do andar de baixo, continua repleto de poeira, exausto e mal usado. Um espelho daqueles de comprar em loja de R$ 1,99 continua ali todo torto, mas agora todo enferrujado pelo tempo. O corpo corrói. Quando eu cheguei por aqui tinha uma bolsa enorme de desejos. Listei cada um deles como faço para as compras na feira de produtos ao fundo de casa. Conheci muitas pessoas, locais e espaços que eu não sei agora descrever o que eram. Acho que às vezes visitei o inesperado, o vácuo, o buraco. Um eco constante me remete a um motor industrial sempre afinado na mesma nota. Não existe razão para um lugar como este. As paredes são frias, o ar é meloso e exausto. A cama persiste em pender para o lado esquerdo. Tudo por causa do estrado que perdeu um de seus dentes. A janela continua sendo um espaço para fuga, mas o recente prédio de 38 andares, que destruiu a casa dos meus 20 vizinhos, não me deixa ver nada. Apenas sinto a umidade, a sensação ruim de ficar encaixotado por uma cidade que não respeita. Fiquei sabendo que tem um abaixo-assinado para cortar todas as árvores da rua. Também pudera, elas foram eleitas as maiores inimigas deste verão. Já pensei em organizar uma passeata para descolar algum trocado com fanáticos por lugares repugnantes. De cima pra baixo todo mundo é ninguém. Vou nessa marcha de soldado, neste cúmulo de azar, neste embaraçoso desprazer. Piso sem ver no que me sustenta.

Um comentário:

Anônimo disse...

convidado a vir cá, de cara levo uma porrada:
"não gosto de POE/sias/mas/tas"... logo pr'eu que curti corvo edgar allan POE
mas entendi porque não quer concorrênciaqui e vai lá me curtir: prosa poeticamente densa não compara com poesia rala... gostei...