quinta-feira, fevereiro 26, 2015

trapiche

São horas da noite.
Na cama deserta
A mão tateia
Seios fartos
derramados pelo corpo
Rapé manchado no lençol
Espaço preto

Sotaque francês
Com gosto de abará
Pimenta da Costa
Eleva a sabedoria
Dos seus olhos miúdos.
Grão do paraíso
Perdido em Mato Dentro.

Algo me diz
Que amanhã lá fora 
A coisa irá mudar
Outro lugar estarei
Onde uma estrela caiu
E eu não tive que acordar
No trapiche, ao quebra-mar

O céu está cheio de estrelas,
A lua hoje não veio,
Para esta noite tão clara.
Ao fundo,
Penso na forma da cor
Aqui perto do mar, no botequim
ou apertando o lençol.

Vem o vento
Que levanta areia.
Fico curvado no tempo
Vendo as velas derrubarem barcos.
Tempestade.
Os olhos ardem,
E os músculos retesam. 

Meu abraço trovoa
Penso em esperanças para teus olhos vermelhos
Guias, contas, quintas, quarta-feira.
Não só,
Mas só e reverencio,
Se for possível nesta retina,
Nessa manhã coberta de cinzas.

Que bom que você existe,
África blue.
O temporal está no fim
Chegou ao cais
E a paz a imitou,
Fruta, temporã, 
Cor de sangue.

Vou sossegado 
Para o lado do rio
E é porque eu não confio em teu carinho
Mesmo que venha até a Lapa
No aço do metrô.
Não me enlace 
E acabe.

Convicção mais ou menos
Explosão de uma pressão
Pare um instante único
Que coisa mais sem lógica
Os braços se socam
A friagem da cerro corá separa
Pressão na boca não cabe.

Formosa,
Feita em base de fórmica.
Ajoelho e trovo sua imagem,
Sádica 
E esporádica.
Deito a cabeça no trapiche 
E espero o nada.

Estimo sua falta de pudor
Deixo a vida e morte pra depois
Corpo a prumo, sigo o rumo
Do nunca, do quase, do nunca mais
O impossível é algo sólido,
saturado de beleza, 
E terra do porvindouro, por favor. 

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