segunda-feira, novembro 27, 2023

à espera de uma boa notíca

Bento nasceu da morte.

Entre gritos, sussurros e desespero, sua mãe, Adelaide, deu à luz gêmeos: Amaro e Bento. O primeiro já veio ao mundo sem vida, com o corpo ainda quente, mas sem movimento, sem sinais de mundo. Durante um quadro de pré-eclâmpsia, a vida de Bento parecia igualmente fadada ao fracasso. Contudo, por um rompante divino — ou talvez desconhecido — ele sobreviveu, sustentado por uma força descomunal entre mãe e filho. A alegria pelo nascimento logo se dissipou com a fatalidade: Adelaide sofreu um súbito disparo arterial, seguido de complicações cardíacas. Bento nasceu órfão.

Entre a rejeição pura e o afeto piedoso, Bento foi criado em um ambiente onde sonhar não era permitido. Ele teria que se tornar alguém na vida, disposto a qualquer coisa, transformando-se num objeto individual e potente de liberdade. Tudo isso à custa de esforço árduo e da busca incessante por bens de consumo, sonhos vazios e um misto de paranóia e ilusão social.

Aos 18 anos, Bento começou a trabalhar na indústria têxtil, um dos poucos setores de emprego em sua terra. O trabalho mal remunerado, a vida incerta e o futuro sem perspectivas eram os ingredientes básicos de uma indústria que havia tomado conta da cidade — já de médio porte e marcada por sermões e desencantos.

Na indústria, no cansaço dos dias repetitivos, ele se via como parte de uma engrenagem maior, onde a liberdade parecia um ideal distante, inalcançável.

A vida seguia: incerta, dura e estrangulada pela espera de uma boa notícia. 

 


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