sexta-feira, junho 29, 2018

anoiteceu

"Parece remendos de um preguiçoso". Após o ímpeto, ela afastou rapidamente a xícara, transformando em enorme barulho aquela sala vazia. Coube ao homem respirar. Pausou e trouxe do fundo a esperança de lutar. Era como se fosse um luto, um fardo digladiar com os próprios vícios. Para que digladiar, se bom mesmo é cozer. No canto da mesa, um maço vazio de cigarro de quinta categoria. No lado inferior, uma perna trêmula pelos hábitos sórdidos.

A frase tumultuava aquela mente jacosa transmutada pelo tempo. Aquele espaço era esplendorosamente grande e inteiramente oco. Apenas uma mesa grande, onde eles estavam sentados, e um velho abajur na extrema direita. Com as mãos frias pelo ócio, o homem fixava o olhar em sua xícara de café. Batia, delicadamente, com a minúscula colher, em seu entorno. Trazia para aquele vazio um som que lembrava o barulho do trem, um ruído ancestral. Em nenhum momento ele procurou cruzar olhares. Apenas fixava os olhos abaixo do horizonte.

Pela janela, um raio de luz descia contornando a silhueta da mulher. O seu corpo fazia sombra no rosto do homem. Ela repetia a frase:"Parece remendos de um preguiçoso". Quanto tempo seria necessário para varrer essas palavras? Chacota. O homem não se preocupava, deixava o corpo se curvar, entrar para si, como se fosse uma lagarta em perigo. A dor de não ter resposta não existe igual. Observando o sol desmanchar no horizonte, já alaranjado pelo cansaço, ele apenas acenou a cabeça em silêncio. Era o fim, anoiteceu.

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