quinta-feira, maio 14, 2009

meu pai

Era junho de 1959, o frio se embutia em cada pedaço do meu corpo, as pernas de um menino de seis anos tremiam e se gesticulavam em desenho de dor. Meu pai, caminhoneiro nervoso, ao lado dirigia seu velho Fenemê 1947 e reclamava mais uma vez de entrar naquela marginal com aquele odor que só São Paulo transferia e transformava para nós do interior. As sombras das nuvens apareciam em meu corpo, eu tentava brincar e redesenhá-las nas minhas pernas finas e frágeis. Em torno do nosso velho caminhão o vento soprava e construía linhas flexíveis aos meus encantos. Eu continuava a desenhar as sombras e agora o ar. Mexia e reconstruía cada forma que aquela cidade me transmitia. O asfalto esburacado construía dentro da cabine um grande assalto de ruídos e imagens e eu pouco me importava com isso. Queria gesticular e me inventar maestro naquele sentido de sons e naquela porção de carros que passavam feito trovoadas. O caminho esboçava meu corpo até o local onde a carga seria entregue. Naquele pequeno período dentro de São Paulo eu edificava dentro de mim diversas histórias e sensações de ser criança e de ser construtor. Em 1959 pouco importava ao meu pai a sensação de ouvir pela primeira vez João Gilberto, ele apenas se atentava ao rádio para saber se Juscelino Kubitschek declararia ou não moratória ao FMI. Desde essa época essa sigla já incomodava e dava muito suco aos jornalistas. Bem, mas isso no fim é o de menos e o caminhão enfim chegava a sua base de entrega. Uma pequena guarita controlava a saída e entrada de veículos e o velho Fenemê parou com a destreza que só ele sabia ter. Aquele barulho do freio de caminhão me impulsionava, sentia dentro da minha própria cabine de trem. Sentia-me dono daquela esperança e sem aquele frio que me comprometia. Documento conferido e aprovado, contudo um detalhe menor se transformou para mim em um monstro gigante, como aquele King Kong que eu havia visto no cinema. Era proibida a entrada de crianças e eu teria que ficar ao lado da guarita esperando meu pai descarregar a carga. E assim foi e fui feito. A noite já assombrava minha mente de criança criativa, e ficar por horas sozinho era uma tensão que eu não queria. O vento cortante da capital me reduzia em algo cada vez menor. Minhas pernas finas e aflitas tremiam e eu não podia chorar, pois os ventos levariam qualquer lágrima para bem longe e eu tinha medo que elas fossem raptadas por qualquer monstro que viesse me perseguir dentro dos meus sonhos. Meu pai não voltava, e o homem da guarita pouco se importava naquela pessoinha cada vez menor e assustada. Uma hora, duas horas, três horas e enfim meu pai voltou. O sorriso em vê-lo foi uma explosão em minha cabeça. Eu saí correndo, e é claro fui abraçá-lo. Hoje não entendo porque ele não brigou, discutiu, feriu aquele homem por não me deixar entrar, mas pouco me importa. Aquele abraço seria para sempre minha casa e o ritual que eu nunca mais iria deixar de querer.

9 comentários:

Murilo Ribeiro do disse...

Nessa época não tinha marginal e o Tiete nao cheirava. Dumb ass...

R. disse...

Acho justa a falta de atenção, principalmente do meu amigo ansioso.
Mas a marginal foi inaugurada em 1957. O texto foi escrito em 1959. Em nenhum momento se fala que o odor era gerado pelo rio tietê. Apenas fala da entrada da cidade.
Agora se as indústrias, os milhares de carros, tudo que ja existia em São Paulo não modificavam o olfato de uma criança do interior. Acho estranho. Mas como a história não é minha, tudo bem, retiro o que eu disse aqui. Fazemos de conta para agradar meu amigo. Beijos mura!

Agora, eu escrevo tudo isso e você se atenta a essas partes?

Beta disse...

que bonito...
abraço-casa-aconchego. Não se esquece de dar muitos desses no seu pai, para continuar reproduzindo rituais que você nunca vai deixar de querer.

Ana Vera disse...

Gordel, acho de uma sensibilidade medonha (no sentido positivo da palavra) Parabéns, vc encarna a criança como ninguém, me comovi e foi bem 1 mês antes de eu nascer...Legal pra caramba! Beijão

Anônimo disse...

Gordel acho que vc encarna as pessoas como ninguém. Parabéns pela sua sensibilidade, muito bom ter gente assim nesse mundo isso conduz mais para a compaixão, sentir o que os outros (e nós mesmos) sentimos com profundidade! Lindo.
Beijão

LUKAZVINI disse...

Opa. Muito bonito.

Bem melhor que falar do falido bafo...rs

Ae Ricardo aquele abraço pra você!

Anônimo disse...

Lindo texto, me fez chorar!! Talvez porque não tenha mais pai, ou talvez porque ele também era caminhoneiro. Fez me viajar para São Paulo. Vi tudo, a guarita, o guarda e você!
Parabéns!
Erica Vittorazzi

eduardo disse...

Anésio e Anescar! Que dupla! Esse caminhão é aquele?

Anônimo disse...

Jura que vc é de Ribeirão? Que bom que a nossa cidade tem grandes talentos!!!
Erica